Parece que a assessoria da Petrobras parou de vazar no blog da estatal as entrevistas feitas por jornalistas. Em seus últimos posts, os responsáveis pelo site têm se preocupado mais em reagir às críticas feitas por jornalistas da dita “mídia golpista e/ou corporativista”, incentivar seus comentaristas favoráveis e em soltar um release ou outro.
Ou seja, intencionalmente ou não, o lance com a Folha de São Paulo na semana passada, geradora de toda essa celeuma que invadiu blogues, noticiários e comentários das mais diversas mídias, se tornou um belo golpe de marketing. Afinal, em 8 dias já foram mais de 188 mil acessos e, segundo o próprio blog, mais de 1,7 mil comentários. Me pergunto se haveria tanta audiência assim caso a Petrobras não tivesse furado a reportagem feita pela Folha de São Paulo.
Afinal ninguém quer ler sobre o outro lado. A não ser que sejamos o outro lado ou amigo ou parente do outro lado. Ou se recebemos grana do outro lado. Se não, deixamos o outro lado de lado.
Foi genial a estratégia. Vaza uma reportagem de um dos principais jornais do país e também um dos que tem dado mais mancadas ultimamente (como o caso da falsa denúncia da Dilma Roussef), sabendo que isso repercurtiria, que muita gente crítica à FSP aplaudiriam, outros jornais comprariam a briga, blogueiros entrariam na discussão. Foi o que aconteceu: logo o assunto estava na tela de blogueiros muito acessados , entre eles o polêmico Reinaldo Azevedo, e outros que tem penetração nas novas mídias sociais, como o Idelber Avelar e a Ana Estela. Virou também assunto de rádio, de televisão, dos jornais impressos.
E o blog da Petrobras bombando e aproveitando para divulgar seus releases. Cutuca aqui, morde ali, solta um release acolá… Aproveita a propaganda para entrar no twitter, onde faz mais divulgação do blog. Todo mundo esperando uma nova briga, um novo ataque à dita imprensa golpista.
Estou alheio aos bastidores da CPI da Petrobras e da relação da imprensa (grande, corporativista, golpista, mafiosa, criminosa – escolha o adjetivo que lhe convir) com a estatal. Não conheço pessoalmente ninguém que tenha ajudado nesse marketing conscientemente ou não. Só tenho acesso aos blogs e aos jornais impressos ou em sua versão virtual. Por isso não posso falar sobre as verdadeiras intenções que motivaram cada um.
Aos poucos fui ficando muito desconfiado, isso sim, dos textos que lia por aí. Um exemplo, a carta da ABI defendendo a Petrobras. Entrei no site e vi que um dos banners patrocinadores da entidade é justamente o da Petrobras.
Acho que as melhores análises que li a respeito do ocorrido vieram do Pedro Doria, do Cláudio Weber Abramo e do Sérgio Leo.
Volto a afirmar aqui que acho o blog uma boa iniciativa para pressionar a imprensa a ouvir o “outro lado” e a não editorializar as respostas dos entrevistados, reprimindo os abusos e mentiras. E não acho que o furo jornalístico acabou, como gritaram alguns. Pelo contrário, vai sempre existir.
E não, não acredito que a Petrobras vá continuar com essa iniciativa de vazar entrevistas. Senão, para ser condizente com seus argumentos, teria de tornar públicas também as informações que passa com exclusividade a jornalistas por sua própria iniciativa ou entrevistas feitas pela imprensa internacional. E também não interessa à própria estatal estar indisposta permanentemente com os principais órgãos de imprensa do país.
Duas observações finais:
* Pouquíssimas pessoas levantaram a bola para outra discussão que surgiu no meio disso tudo: o elevado número de críticas feitas à imprensa, mostrando que nossa credibilidade está muito em baixa.
** É interessante ver como as pessoas – quando vão discutir algo – olham apenas os aspectos que lhe interessam e ignoram completamente outros que vão contra seus argumentos.
