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O golpe (de marketing) do blog da Petrobras

Junho 10, 2009

Parece que a assessoria da Petrobras parou de vazar no blog da estatal as entrevistas feitas por jornalistas. Em seus últimos posts, os responsáveis pelo site têm se preocupado mais em reagir às críticas feitas por jornalistas da dita “mídia golpista e/ou corporativista”, incentivar seus comentaristas favoráveis e em soltar um release ou outro.

Ou seja, intencionalmente ou não, o lance com a Folha de São Paulo na semana passada, geradora de toda essa celeuma que invadiu blogues, noticiários e comentários das mais diversas mídias, se tornou um belo golpe de marketing. Afinal, em 8 dias já foram mais de 188 mil acessos e, segundo o próprio blog, mais de 1,7 mil comentários. Me pergunto se haveria tanta audiência assim caso a Petrobras não tivesse furado a reportagem feita pela Folha de São Paulo.

Afinal ninguém quer ler sobre o outro lado. A não ser que sejamos o outro lado ou amigo ou parente do outro lado. Ou se recebemos grana do outro lado. Se não, deixamos o outro lado de lado.

Foi genial a estratégia. Vaza uma reportagem de um dos principais jornais do país e também um dos que tem dado mais mancadas ultimamente (como o caso da falsa denúncia da Dilma Roussef), sabendo que isso repercurtiria, que muita gente crítica à FSP aplaudiriam, outros jornais comprariam a briga, blogueiros entrariam na discussão. Foi o que aconteceu: logo o assunto estava na tela de blogueiros muito acessados , entre eles o polêmico Reinaldo Azevedo, e outros que tem penetração nas novas mídias sociais, como o Idelber Avelar e a Ana Estela. Virou também assunto de rádio, de televisão, dos jornais impressos.

E o blog da Petrobras bombando e aproveitando para divulgar seus releases. Cutuca aqui, morde ali, solta um release acolá… Aproveita a propaganda para entrar no twitter, onde faz mais divulgação do blog. Todo mundo esperando uma nova briga, um novo ataque à dita imprensa golpista.

Estou alheio aos bastidores da CPI da Petrobras e da relação da imprensa (grande, corporativista, golpista, mafiosa, criminosa – escolha o adjetivo que lhe convir) com a estatal. Não conheço pessoalmente ninguém que tenha ajudado nesse marketing conscientemente ou não. Só tenho acesso aos blogs e aos jornais impressos ou em sua versão virtual. Por isso não posso falar sobre as verdadeiras intenções que motivaram cada um.

Aos poucos fui ficando muito desconfiado, isso sim, dos textos que lia por aí. Um exemplo, a carta da ABI defendendo a Petrobras. Entrei no site e vi que um dos banners patrocinadores da entidade é justamente o da Petrobras.

Acho que as melhores análises que li a respeito do ocorrido vieram do Pedro Doria, do Cláudio Weber Abramo e do Sérgio Leo.

Volto a afirmar aqui que acho o blog uma boa iniciativa para pressionar a imprensa a ouvir o “outro lado” e a não editorializar as respostas dos entrevistados, reprimindo os abusos e mentiras. E não acho que o furo jornalístico acabou, como gritaram alguns. Pelo contrário, vai sempre existir.
E não, não acredito que a Petrobras vá continuar com essa iniciativa de vazar entrevistas. Senão, para ser condizente com seus argumentos, teria de tornar públicas também as informações que passa com exclusividade a jornalistas por sua própria iniciativa ou entrevistas feitas pela imprensa internacional. E também não interessa à própria estatal estar indisposta permanentemente com os principais órgãos de imprensa do país.

Duas observações finais:
* Pouquíssimas pessoas levantaram a bola para outra discussão que surgiu no meio disso tudo: o elevado número de críticas feitas à imprensa, mostrando que nossa credibilidade está muito em baixa.
** É interessante ver como as pessoas – quando vão discutir algo – olham apenas os aspectos que lhe interessam e ignoram completamente outros que vão contra seus argumentos.

Existe pergunta em off?

Junho 8, 2009

O entrevistado pode divulgar as perguntas feitas por um repórter antes que a matéria seja veiculada?

Acho que essa é a pergunta da vez desde que a Petrobras criou um blog chamado Fatos e Dados e nele publicou as perguntas enviadas por email pela reportagem da Folha de São Paulo, assim como as respectivas respostas, antes que o texto fosse publicado no jornal. Tal atitude foi atacada não só pela Folha como por outros jornais, e o site acabou se tornando mais uma espécie de trincheira da Petrobras contra a imprensa.

Não quero aqui falar sobre os bastidores da cobertura da CPI da Petrobras e sobre a relação dos jornalistas com a estatal. Tampouco entrar no mérito das denúncias contra a estatal. Mas como jornalista acredito que a decisão da assessoria da Petrobras, ao divulgar as questões antes da reportagem ser publicada, é prejudicial tanto para o jornalismo como para as próprias fontes.

Não só pelo vazamento do material feito por um repórter, mas pelo modo como o blog expõe as perguntas feita por órgãos de imprensa, junto com as respostas, é claro o tom às vezes jocoso às vezes de confronto que a assessoria da estatal assume. De acordo com reportagem da Folha, o gerente de imprensa da Petrobras, Lúcio Pimentel, afirmou que a estatal continuará a divulgar e-mails de reportagens ainda em andamento. Disse ser uma “política de transparência”.

Sei também que é muito difícil de se defender quando um órgão de imprensa resolve atacar alguém. Sou jornalista, e sei um pouco como funciona isso tudo. Mesmo sabendo que existem meios de a pessoa que se sentir ofendida reclamar seus direitos, seria hipócrita se afirmando que eles são 100% eficazes. Não são. A imprensa, quando erra, pode ferrar a vida de alguém.

Mas vazar as perguntas e respostas antes da publicação da reportagem não é uma “prevenção” a qualquer edição mal feita (intencionalmente ou não), como explica o blog, e sim “sabotagem pura”, como disse o Reinaldo Azevedo.

Houve quem defendeu a manobra, como o Luis Nassif. Pedro Doria diz que nunca ouviu falar em sigilo de pergunta, mas acredita que quando assessor de imprensa faz o que a estatal fez, “dá tiro no pé”. No blog Novo em Folha, a Ana Estela afirma que não “há argumento razoável pra divulgar antes”. Sérgio Leo, indicado no blog da Ana, diz que se a estatal não concordar com a edição da reportagem, pode aí sim divulgar a íntegra das perguntas e respostas “DEPOIS da matéria publicada”.

Aliás, o Sérgio Leo foi bem preciso na seguinte afirmação:

A idéia de abrir um blogue, para reproduzir as respostas da empresa aos questionamentos da imprensa e contestar a abordagem adotada nas matérias dos jornais é excelente. Dá transparência e coibe abusos da midia. Mas publicar no blogue os pedidos de esclarecimentos feitos pelos jornalistas, antes mesmo que o jornal tenha chance de publicar as respostas, é uma esperteza idiota, um estímulo ao mau jornalismo,e não o contrário.”

O meu receio é se a decisão da Petrobras virar moda. Todos saíremos perdendo, jornalistas, entrevistados e leitores. Imagino três consequências:

1) O jornalista vai reduzir o tempo entre a entrevista com o entrevistado alvo de denúncia e a veiculação da reportagem;

2) Os jornais vão perder suas notícias exclusivas;

3) Jornalistas menos atentos a questões éticas deixarão para entrevistar o denunciado após a veiculação da reportagem.

Essas atitudes listadas acima já ocorrem mesmo sem a decisão da Petrobras. Quantas vezes já vi político ligando para jornalistas concorrentes ou jornais vendidos com informações que negam o que será publicado pelo jornalista que levantou uma acusação grave contra ele. Mesmo agindo sem má-fé já vi assessor divulgando release com matéria que estava sendo apurado por algum órgão de imprensa. Quantas denúncias vemos publicadas em jornalões e revistas nacionais sem que a “outra parte” seja ouvida?

Em vez de quebrar regras do bom jornalismo, a assessoria de imprensa da Petrobras poderia responder seriamente às perguntas. Se estiver certa, e o jornal foi sério, a reportagem pode até cair. Senão, publica no blog depois, pede direito de resposta, processa o jornal…

Não existe pergunta em off. Em teoria, divulgar as perguntas antes e socializar uma notícia antes de ela ser publicada não é ilegal e pode até fazer com que a denúncia chegue a um maior número de pessoas, já que outros órgãos de imprensa poderão ir atrás do fato e divulgar o assunto ao mesmo tempo. Mas todos sabemos que não é assim que funciona. O furo e a notícia exclusiva ainda fazem parte da essência do jornalismo.

Sem contar que a Petrobras faz no blog o que ela critica nos órgãos de imprensa: editar e editorializar os fatos.

 

Atualizando, às 11h do dia 8/6/2009:

Li hoje de manhã mais dois artigos interessantes sobre o caso: do Pedro Doria e do Idelber Avelar.

O Doria segue a linha já expressa antes, do tiro no pé dado pela assessoria de imprensa, e insinua que esse é um ato isolado de uma empresa de assessoria, mas alerta para um problema mais grave: a falta de credibilidade cada vez maior da imprensa.

O do Idelber defende a Petrobras e ataca os jornalões. Não concordo com ele 100%, muito menos com a idéia central do texto, de que a Petrobras está certa na atitude, mas reconheço que há muitas verdades no que ele disse.