Posts Tagged ‘Óbvio Ululante’

“Você tem dinheiro sobrando aí?”

Novembro 27, 2008

Hoje, numa emissora local, uma repórter fala sobre denúncia de entrega de medicamento feita pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia para um fulano bem enturmado de outra cidade. O tom da matéria era condenar tal atitude, já que muitos goianienses não conseguem comprar seus remédios nem pegar um de graça na SMS. Até aí tudo bem, mesmo com os clichês. Mas então eis que surge a repórter entrevistando o “povo” e detona essa:

“A senhora tem dinheiro sobrando para comprar remédio?”

Sobrando? E foi perguntar isso para uma senhora de mais de 50 anos, com cara bem de pobre. Nem precisava dizer para quê era o dinheiro. “Tem dinheiro sobrando aí? Então me empresta unzinho.”

Depois vem o apresentador do telejornal, fazendo aqueles comentários clássicos de apresentadores indignados e preocupados, e solta mais uma pérola:

“Causa estranheza o secretário não querer falar sobre o assunto.”

Estranheza seria o secretário tomar a iniciativa de esclarecer tudo de forma sincera, assumindo sua responsabilidade. Aí sim, seria algo fora do normal.

Do jeito que o apresentador falou, e pela forma como a matéria foi apresentada, ficou parecendo matéria direcionada.

É dever do jornalista ulular o óbvio

Novembro 26, 2008

Essa é para quem não gosta de dar entrevistas:

Pautei uma repórter para fazer uma matéria sobre a decisão do Ministério Público de entrar na Justiça para proibir que garagistas estacionem seus carros à venda nas calçadas “para exposição” ou mesmo por falta de espaço dentro das garagens. Só que os caras já haviam sido autuados no começo do mês pela Prefeitura e por isso não havia mais nenhum veículo fora do estabelecimento ou do local correto para estacionar. Quando a repórter foi entrevistar um dos garagistas, o escolhido estava muito chateado por ter sido multado pelo órgão fiscalizador da Prefeitura. “Meu contador disse que vai tentar reduzir o valor da multa, mas mesmo assim vou ter de pagar uma grana”, contou à jornalista, mostrando um papel de… autuação. “Mas isso aqui diz que o senhor foi autuado e não multado, diz que o senhor tem até oito dias para tirar os carros da calçada, aí sim, se o senhor não tirasse, a Prefeitura tomaria outras providências”, observou a repórter. Nervoso e chateado, ele ainda tentou retrucar: “É, eu sei, também pensei isso quando li essa folha. Mas meu contador disse que fui multado. Tenho de confiar nele, né?” O óbvio ululante nem sempre ulula para todos.

Não sei o que aconteceu depois que a repórter foi embora dali. Mas achei o caso uma boa história para contar a quem não gostar de atender um jornalista.

Um pouco de lógica

Novembro 25, 2008

Hoje, um casal de irmãos foi preso tentando, segundo a polícia, comprar por R$ 30 mil uma menina recém-nascida de apenas cinco dias de vida em Senador Canedo. Ainda segundo a polícia, a própria mãe da criança foi quem procurou a polícia para denunciar o casal. A história é cheia de aspectos dramáticos e tal, rendendo uma boa reportagem, mas o que me chamou a atenção mesmo foi a explicação que o repórter do jornal da Record deu para justificar a ausência do nome da mãe da criança na matéria.

Pelo que ele disse, a polícia informou que não divulgaria o nome porque colocaria em risco a vida da mulher e do marido dela, um cara que está preso na Casa de Prisão Provisória (CPP), em Aparecida de Goiânia. É que o casal teria ameaçado fazer alguma coisa com o cara ou mesmo com a mãe da criança caso ela procurasse a polícia.

Um pouco de lógica nos neurônios me fizeram concluir que o casal de irmãos não faz a mínima idéia de quem era a mulher com quem estariam fazendo negócios. Eles foram presos na casa da mulher, com um cheque de R$ 20 mil, mas não sabiam quem ela era. Porque se eu estiver errado, então os irmãos não precisariam esperar a mídia divulgar o nome da mulher para ir atrás dela e do marido preso.

Acho que divulgar o nome da mulher realmente é desnessário. Mas tem hora que as pessoas nos dizem cada coisa para a gente calar a boca logo. Deve ter sido o que o policial fez para o repórter.