Os dedos
A mulher parada na calçada contava os dedos. As duas mãos apertadas, na altura do peito, a uns vinte centímetros do corpo. Ela olhava as mãos. Os dedos se mexiam, e ela parecia contá-los inúmeras vezes, sem nem respirar. Como se não houvesse mais pessoas ao seu lado, nem carros, nem ruas, nem prédios, nem cidade. A mulher estava ali, parada. Para ela, os dedos bastavam. Magra e barriguda, lábios finos, tinha o nariz arrebitado, as bochechas e testa vermelhas. Uma figura curiosa, inusitada. Tinha traços saídos dos quadrinhos de Tin-Tin. O cabelo em corte masculino. As roupas que não combinavam. Nada parecia incomodá-la. Na verdade, e eu percebi isso enquanto me aproximava, ela estava desesperada, perdida em seus dedos. A chuva começara a cair, grossa e pesada. As folhas velhas das árvores do bosque decadente começaram a cair em cima da mulher parada. E ela nem se importava. Sua cabeça, agora molhada, estava preocupada apenas com os dedos. Ao chegar perto dela, percebi seus lábios movendo-se nervosamente. Ela não mexia os dentes, apenas os lábios. De um jeito que fazem os desesperados quando querem gritar sem fazer barulho. Nesta hora, alguns começam a falar rápido demais. Talvez nem ela soubesse o que estava fazendo ali. A mulher estava parada na calçada, mas talvez para ela o que parou mesmofoi a vida. Há tanto tempo quanto seus dedos podiam contar.
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Três formas de gritar em silêncio – 1
Janeiro 19, 2009“Aonde for não quero dor”
Dezembro 8, 2008Aquela maldita desgraçada. Nunca fiz nada contra ela e agora estou aqui pagando esse mico filho da puta. O delegado não sabe o que é amar uma pessoa e não ser correspondido. O idiota não entende de amor. Nunca sentiu aquela paixão fulminante que aperta o coração da gente e faz doer cada centímetro cúbico de músculo. Uma mão invisível que tampa parte da vista e centraliza tudo numa só coisa: ela. Eu a amei desde aquele dia no shopping. Ela estava linda. Cabelo loiro curto, sobrancelhas suaves, lábios carnudos, magra e com os peitos durinhos que cabem nas minhas mãos. Do jeito que eu gosto. E ela sorriu para mim. Sei que sorriu. E foi para mim. Um sorriso tão doce. Deve ser uma moça bem-humorada. E não há nada melhor que uma linda garota com bom humor. Só que eu não podia chegar nela ali no shopping. Carregando compras de supermercado. Fui atrás dela. E depois de muito trabalho descobri endereço, telefone, com quem mora, que academia freqüenta e o que faz fora do horário de trabalho. Fiquei de campana em frente ao seu prédio por horas. Tentei ser o mais discreto possível. Tudo para estar no momento certo de abordá-la. Só que nunca aparecia a hora certa. Sempre tinha um empecilho. Tinha de ser perfeito. Ela merecia isso. Ela era tudo para mim. Confesso que fiquei muito nervoso e que posso tê-la assustado. Mas os telefonemas eram necessários. Ela precisava saber. Precisava entender. Agora isso. O delegado fica me ameaçando. Diz que não quer saber mais de eu ficar atrás dela. Que não posso nem pensar nela. Ah, delegado, tu não sabe o que é amor. A polícia não pode prender meus sentimentos. E minha mãe veio comigo aqui na delegacia. Ficou assustada quando os policiais foram lá em casa. Os vizinhos ficaram olhando na calçada.
“O que meu filho fez, doutor delegado?”
“Ele fica ameaçando moças por aí, senhora.”
Eu? Ameaçando? Amar sempre foi arriscado, delegado. Fiquei com raiva. Vergonha. Que humilhação. Mas tudo bem. Eu sei que sempre vou amar essa garota.
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Dezembro 8, 2008Jorge, o porteiro do prédio, me disse que aquele é o quinto rapaz que passa a noite no 502 em menos de três meses. Tudo moleque. Aposto que eles não dão conta de você, avião. Só não entendi porque o Jorge não quis me dizer o que você fica conversando com ele antes de sair ao trabalho. Será que falaram de mim? Sobre aquele dia que quase a beijei no elevador? Será que você perguntou mais detalhes sobre quem é aquele homem com nome de amante latino que mora no andar de cima? Sou eu, claro, neném. O Jorge não sabe de nada, coitado. É só um infeliz que fica na entrada do prédio. Deixa que te conto tudo que você quiser saber. Aquele dia no elevador, se lembra? Você estava tão facinha, era só pegar. Você tava para aceitar o convite. Meus filhos iam para casa da mãe deles naquela noite. Mas a desgraçada da Tereza, do 803, que não tem o que fazer o dia inteiro, resolveu passear no elevador. Filha da puta desgraçada. Ela entrou bem na hora que você, com esta boca, este sorriso… Você ia dizer sim, né, neném? Ainda tentei interfonar no seu apê mais tarde. Você estava acordada, vendo o Jô Onze e Meia, escutei o gordo atrás da porta, porque não atendeu? Eu estava sozinho em casa. Era só subir um lance de escadas. Insisti e nada.
Tudo bem. Semana que vem, meus filhos entram de férias e vão passar uns dias na casa da ex. Aí ninguém nos segura.
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Dezembro 7, 2008Sempre fui um cara legal. Levei-a ao cinema. Dei flores. E bombons. Dos mais caros. Ficou muito feliz. Mas aposto que não tem a mínima noção de quanto custou tudo isso. E os restaurantes de luxo? E os passeios? Ela acha é fácil conseguir os melhores lugares nas boates e shows? Gastei gasolina um monte. Deixava ela dar umas voltas no carro do papai. Carro de luxo. Bem mais caro que o meu. Ela dizia não ligar para dinheiro, mas eu sempre lhe dei presentes dos mais valiosos. Levei-a nas festas da minha família. E a minha família é “a” família. Ela saiu até em coluna social por minha causa. E agora? Ela chega e reclama que fico na sua cola, que não desgrudo, que sou pegajoso, que precisa de um tempo. É claro que não aceitei. O que será que ela queria mais de mim? Tentei me abrir, ser mais sincero. Na hora em que o coração apertava, a procurava para conversar. Ela sempre se esquivava. “É muito tarde, preciso dormir para acordar cedo…” ou “Você está me impedindo de andar na rua…”
Sempre a mesma ladainha. Ela quer um tempo? Tempo é dinheiro. Eu compro o tempo que ela quiser. Quanto ela quer para ficar comigo?
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Dezembro 6, 2008Ela está atrasada. Merda. Parece que vai chover. O que será que aconteceu com ela? Estou sentado aqui no bar, mas ainda não bebi nada. Vou pedir alguma coisa lá dentro. Não posso ficar muito tempo do lado de fora. Vai chover. Ou espero a menina passar para convidá-la para um drinque? E um espetinho. Se ela estiver com fome. Desta vez eu chego junto. Sei que tenho alguma chance. Mesmo ela tendo a idade da minha segunda filha, a do meio, uns 24 anos. Eu tenho 50 e poucos, mas estou em forma. Não sou qualquer um. Fui jogador de futebol, o melhor volante do meu tempo aqui na cidade. Só não fui adiante na carreira porque era melhor ainda como advogado. Em forma e com papo. Elas gostam. Hoje estou parado. Mas ainda tenho muita energia. Deixa essa menina linda passar aqui que vou mostrar o que a experiência faz com o homem. Ela não vai resistir. Ela deve gostar de homens mais velhos. Todo dia ela me encara quando passa por mim. Seja aqui no bar do Elias, seja lá no banco da praça. Todo santo dia. Idade pra mim nunca foi problema. Quando eu era jovem como ela, tive um rolo com uma mulher de 40. Hoje tenho 56. Mas isso só quer dizer que tenho mais de 40 anos de experiência sexual. É muita coisa para mostrar a esta garota. Tão bonitinha, tão angelical. Ela deve ser tão bobinha. Precisa de alguém mais maduro para lhe ensinar a vida. Ei, olha ela ali, se aproximando. Atrasada. Isso, vem. Passa aqui. Caramba, deixa eu arrumar minha camisa. Vem, boneca, que não estou cheirando bebida nem cigarro dessa vez. Parece cansada. Que foi? Hummm, olhou para mim de novo. Hã, está atravessando a rua? Por quê? Não, não… Volta aqui, porra.
“- Eh, mulher maravilhosa…”
Amanhã eu sei que você vai ter coragem de passar aqui.
Um bilhete tardio
Dezembro 5, 2008Sem que você percebesse, peguei R$ 1.000 emprestados da sua bolsa, comprei uma passagem sem saber qual destino e parti. Pedi à balconista que escolhesse qualquer cidade, cujo bilhete me custasse até R$ 300, e peguei o papel sem lê-lo. Apenas embarquei na plataforma que ela me apontou. Nem eu sei onde estou agora. Sei apenas que há esta agência dos Correios ao lado da Rodoviária e um hotel barato em frente a uma praça que dá para a igreja matriz da cidade. Aqui está sol e é quente a beça. Estou suando. Estou nervoso. Parece que pela primeira vez fiz a coisa certa em minha vida. Estou feliz comigo mesmo.
Olha, fui embora e não volto. Não adianta me procurar. E não se preocupe, pois assim que consegui um emprego te devolvo o empréstimo. Prometo. Não sei ainda que emprego posso arranjar aqui. Talvez haja algum rádio precisando de um jornalista da cidade grande. Talvez algum político esteja disposto a investir num jornal. São coisas que existem em todo lugar. Se não der, tudo bem. Vi que estão precisando de vendedores numa loja aqui perto. Talvez tente esta vaga. Não sei se tenho sorte com vendas. Por anos tentei te vender o mais puro amor, e nada.
Fique aí e sinta o vento entrar na janela, deixe aquele cd do Radiohead tocar. Não estou aí para impor as minhas músicas. Pegue o jornal e jogue para o alto. Deixe as folhas se espalharem aleatoriamente pela casa. Não tenho como lhe dar uma bronca. Leve aquele piano que você comprou, mas que fiz deixar na casa de sua mãe. Abra todas as portas, arranque das janelas as cortinas que você nunca gostou. Deixe a claridade entrar na casa e invadir seu corpo. Não se preocupe com as cartas, os retratos ou qualquer coisa que a faça lembrar de mim. Já a livrei de tudo. Não há nada com minhas digitais. Vá, olhe para o horizonte mais longe, não sei se daí conseguirá ver o Sol forte que queima meu rosto agora, mas sinta o dia te esquentar. Você está viva. Talvez pela primeira vez depois de tantos anos. Aproveite.
este idiota é o cara da sua vida?
Novembro 30, 2008Madrugada de janeiro. O telefone toca no quarto de Joana. Ela não quer atender porque sabe quem é. Alguém que seu atual namorado não conhece, mas já ouviu falar. E mal. O problema é que Joana não percebeu que Jeffrei, seu namorado, acordou com o toque do telefone e resolveu atender.
- Oi, quem é? – pergunta Jeffrei.
- Quem é você, cara? É da casa da Joana?
- Sim. Posso ajudar.
- Você trabalha para ela? É alguma espécie de secretário dela?
- Não.
- Então não pode fazer nada por mim. Passa para ela.
- É para você.
- Alô.
- Quem é esse cara? Você trepou com ele?
- Quem é? Hã, Charles, o que você… Sabe que horas são?
- E você sabe que eu te amo? Por que faz isso comigo?
- Ah, não, por favor, desculpe, mas hoje não posso falar com você. São três da manhã.
- Eu te amo, sempre te amei e sempre vou te amar. Não existe outra mulher para mim. E já são quatro da manhã.
- Ei, eu disse que não posso falar com você. Se você continuar insistindo, não me ligue nunca mais.
- Por que você faz isso comigo?
- Aconteceu alguma coisa? Está tudo bem? Por que eu preciso dormir. Tenho de acordar daqui a duas horas e meia para ir para Anápolis, numa reunião de com meus chefes. Tchau, Charles.
- Eu te amo, meu amor. Vo… -Joana desliga o telefone antes de ele terminar a frase.
- O que ele queria, Jô?
- Nada. Estava bêbado.
- Você quer que eu converse com ele amanhã.
- Não. Pelo amor de Deus. É só um bêbado. E agora que ele falou com você, deve ter ficado com medo. Não liga mais.
…
Uma semana se passa. Três horas da manhã. O telefone toca. Joana e Jeffrei acordam. Ele olha as horas, olha para o rosto de sua namorada e atende.
- Oi, Charles.
- Eu te conheço, cara?
- Não, mas o dia que me conhecer vai se…
Joana pega o telefone antes que o advogado terminasse a frase. Ela sabe que Charles gosta das provocações, porque é uma chance de fazer disso um escândalo. E aí sim ela não teria paz.
- Charles, é você?
- Sabe, estava pensando, esse negócio de cara metade não existe.
- Por favor, Charles, eu vou ter de ser mais drástica com você?
- Você ama esse filho da puta?
- Charles, vá toma no cú.
- Me diz isso, só isso. Você acha que ele é o homem da sua vida?
- Amo, Charles, ele é o homem da minha vida. Agora tchau.
Jeffrei olha para os olhos de Joana e sorri. Olha para o telefone e faz cara de bravo. Ameaça pegar o telefone. Joana afasta a mão com a qual segura o fone.
- Mas como você pode dizer que ele é o homem da sua vida? Você conheceu todos os homens do mundo para poder chegar a esta conclusão. E se por acaso o homem da sua vida está vivendo em outra cidade, em outro país, na China, está chegando de ônibus lá de São Paulo, ou quem sabe ali do outro lado da rua, no apartamento do sétimo andar do edifício em frente. Você nunca vai descobrir porque acredita que este idiota é o cara da sua vida.
- Tá bom, Charles, você tem razão, agora deixa eu dormir, por favor. E não me liga mais. Se não vou falar com sua namorada. A Karine me disse que você tá namorando. Eu descubro quem é e vou lá falar com ela.
- O que estou querendo dizer é esse negócio de a pessoa da nossa vida não existe. Eu sei que por um tempo você teve uma queda por mim. Eu também tive. Ainda tenho. Mas eu sei que você não é a mulher da minha vida.
- Ó, que pena. Poxa…
- Não, espera, deixa eu terminar. Você nunca vai encontrar o homem da sua vida. Atualmente devem existir alguns milhões de homens em idade, saúde e condições de procriar com você. Quantos deles devem fazer o seu tipo? Vamos dizer que metade. Tá, tá, sei que você é exigente, então, um quarto destes milhões de homens do mundo. E se a sua cara metade nasceu na Rússia? Você vai deixar ele de lado só porque ele não sabe falar sua língua e mora do outro lado do mundo?!?
- Olha, eu sei que você está ligando do seu celular, por isso vou ser boa com você, não quero que você gaste o seu dinheiro.
- Não, espera. O que é a cara metade de uma pessoa se o seu tipo de homem é influenciado pela mídia, se você passa a gostar das pessoas porque elas se parecem com o Rodrigo Santoro ou o Brad Pitt, se você acha atraente um tipo de cara porque ele lembra seu pai, porque ele te engana dizendo coisas que nem ele acredita? Como você pode dizer que ama alguém, se você não dá chance para saber se não existe outro homem que seja melhor do que este que você está aí. E eu não duvido que existam muitos melhores que esse daí. Mas, antes que você desligue, pergunte para você mesma, você ama esse cara? Ele realmente te ama? Ou está com você porque você é o tipo de garota que ele gostaria de ter. Uma boa foda, daquelas que dá para mostrar pros amigos e uma mulher que não reclama. E se ele for viado, mas tem medo de assumir, e por isso está com você. Você já reparou se ele fica olhando muito pros outros caras? Eu aposto que ele fica olhando.
- Tá, tá bom. Agora deixa eu dormir.
- Eu est… – Joana desliga o telefone.
Joana coloca o telefone no chão. Deita. Aproxima seu rosto ao de Jeffrei. Puxa o cobertor até a altura dos ombros. Jeffrei passa a mão em seus cabelos, aperta a cabeça dela levemente contra a sua. Ele a beija. Ela interrompe.
- Como você sabe que me ama?
Volta de apresentação
Novembro 29, 2008- Pára, pára. Espera. Não dá pra ser mais delicado não?
- Tá querendo um viado na cama?
- Vá tomá no cú, Paulo, você sabe do quê estou falando.
- …
- Não dá pra ser mais sensível? Mais carinhoso? Sua mãe não te deu carinho?
- Deste tipo não. O que você tá querendo insinuar?
- Ai, você já vem pegando, chupando, metendo, depois vai gozar, virar pro lado e dormir. Não é isso que eu quero de um homem na cama. Quero um cara que me satisfaça também, que se preocu…
Não escuto o resto da frase. Juro que não imaginava que essa garota seria assim cheia de frescura. Tenho tido azar com mulheres ultimamente. Ou são muito difíceis de se levar pra cama ou quando as levo com certa facilidade, elas vacilam na hora H. Antes dessa, teve uma que começou a chorar porque o “meu jeito agressivo” na hora de foder lembrava um ex dela que a agredia. “Mas eu não bato em mulheres”, tentei explicar. “Desculpe, mas não é culpa sua.” E não rolou nada naquela noite.
Teve uma outra antes que levei de carro até uma área deserta aqui na cidade. Era tarde da noite. Estávamos avançando rapidamente, pulando estágios, beijos, chupões, roupas arrancadas… Quando estávamos nus, as mãos dela nele, a mulher pára tudo. “Não posso continuar, a gente nem se conhece.” Eu havia pego ela num bar horas antes. Argumentei o velho papo da tesão a primeira vista, que aquilo veio naturalmente, a gente deveria respeitar, mas não adiantou. Apelei: “Mas como você diz isso justamente agora. Olha como estamos! Pelados! Você tá com a mão no meu pau! E vem me dizer que não poder dar pra mim porque a gente mal se conhece. Pôr a mão no pau pode, então? Porque não disse antes. Lá no bar. Eu pegava outra garota.” “Vá se foder, seu porco. Me leva de volta agora.”
Hoje não foi diferente. Eu conheci a… esqueci o nome dela, puta merda… num bar no fim de semana passado. Ela é loira estilo mignon, deve ter seus metro e 60 e uns 60 quilos. Falsa magra, com bons peitos e uma bunda até que arrebitada e dura. Na cama, vi que tem umas estrias, mas tudo bem. Inteirona para alguém de 30 anos. Quando a vi no bar, me chamou a atenção seus lábios, carnudos e um pouco besuntados com um batom levemente roxo. Comentei com um amigo. Acho que ela percebeu e começou a me olhar. Quando foi ao banheiro, fui atrás e nos encontramos quando voltávamos para nossos lugares. Começamos a conversar. E fiquei lá com o grupo dela. Fomos embora juntos. No meu carro. Em uma semana, liguei para ela uma vez e ela, três para mim. Almoçamos juntos na quinta-feira. Escolhi um restaurante vegetariano para impressioná-la. Deu certo. Hoje, havíamos ido ao cinema, depois um barzinho freqüentado por casais e viemos para o motel.
- Então. Você está prestando atenção no que estou dizendo.
- Claro. Claro. Continua.
- Já acabei. P-A-U-L-O. Faz tempo. Poxa. Quando a gente se conheceu, você parecia ser tão diferente.
- Como assim? Você achou que eu queria o quê?
- Achei que você estava gostando de mim.
- Mas é claro que sim. Senão não estaria aqui na cama com você.
- Aposto que você estaria com qualquer uma na cama.
- Com certeza não.
Sempre que falam isso pra mim, me lembro de umas mulheres que nunca levaria pra cama.
- E outra. O seu modo de falar. É muito chão, muito palavrão.
- Eu falo o que penso.
- Então você precisa despoluir essa sua mente.
- Claro. Porque você deve ser daquelas que quando vai pro banheiro pensa “preciso ir ao toalete” e não “porra, preciso dar uma mijada agora”. Eu costumo ser natural, falo o que penso e como penso. Você fala “aquele cara é homossexual”. Eu falo “aquele cara é viado, baitola”
- Paulo, por favor. Vamos voltar a falar da gente. Você sabe o que são preliminares? Já ouviu isso antes?
- Tá, você tá querendo que eu chupe sua xoxota?
- Paulo, pelo amor de Deus, se você falar outro palavrão eu vou embora.
- Eu sei o que são preliminares. É que nem na Fórmula Um, quando os carros dão uma volta de apresentação antes da corrida em si. Para esquentar os motores, deixar o carro preparado. – Falo isso enquanto aproximo o meu rosto ao dela.
- Hã… É. É isso mesmo. – Fito seus olhos. Miro sua boca. Aproximo mais o rosto.
- Bem, e você já fez cinco pitstops hoje, né?
- Como assim?
- Por isso que nunca gostei de metáforas automobilísticas. Prefiro as futebolísticas. Se continuarmos assim, não vamos sair do zero a zero.
- Mas você quer é ficar no um a zero pra você. E eu quero um a um.
- Você tá muito chata. Eu tô vendo que vou ficar no cinco a um.
- Que?
- Deixa quieto. – Meus lábios estão quase tocando os dela.
- …
Com a mão em sua cabeça, aproximei sua boca da minha e a beijei. Meus lábios tocaram os seus com vontade. Nossos dentes chegaram a se bater. Passei a língua pelo contorno da sua boca. Ela enfiou a dela na minha. Suguei sua língua e coloquei a mão dela no meu pau. Ela deixou. Joguei-a deitada na cama e montei nela. Chupei os peitos, um de cada vez, por uns minutos. Talvez fosse isso que ela estivesse querendo. Abri sua boca, enfiei minha língua lá dentro e dei uma cuspida que foi no fundo de sua garganta. Encostei a cabeça do pau na xoxota. Ela soltou um peido. Fiz que não escutei. Ela não. E parou tudo. De novo.
- Desculpe. Mas eu não consigo.
- Não consegue o quê? – (Suspiros de ambos)
- Transar com você. Estou grilada.
- Você “é” grilada. Diferente de “estar” grilada.
- E você não ajuda.
- O que você quer que eu faça?
- Se você fosse mais carinhoso, mais compreensível, já seria suficiente. Mas acho que não te conheço o bastante. Talvez não fosse a hora. Eu precisava ter mais certezas.
- Olha, se eu quisesse ficar conversando com você, dando uns amassos, ficava lá no bar. Quando a gente veio pra cá, achei que você tava a fim de dar pra mim. Porra. É só uma foda. Pra que colocar tanto bicho na cabeça? Vocês, mulheres, colocam tanto empecilho numa coisa que pode ser tão simples e prazerosa que acabam deixando de aproveitar uma coisa que pode ser muito boa.
- Não me venha com essas teorias absurdas.
- Verdade. Você não tem vontade de dar? De sentir um pau em você? E por que então fica com tanto grilo na cabeça. “Ai, o homem tem de ser assim, tem de fazer isso e aquilo, tem de me abordar de tal jeito, tem de falar tal coisa.” Porra, quando no final das contas, o que importa é se o cara mete bem ou não.
- Me surpreende que você não seja mais virgem. Que alguma doida tenha dado pra você. Eu quero voltar pra casa.
- Pronto. Mais uma. Por que você não vai procurar um indiano e fica lá fazendo sexo tântrico com ele?
- Deve ser mil vezes melhor que dar pra você.
- Ei, você falou “dar pra mim”?! Achei que você ia falar “manter relações afetivas que envolvessem algo carnal múltiplo, mútuo e prazeroso”.
- Vá se foder.
