Posts Tagged ‘Estórias para o Pedro’

Amor de pai e filho

Junho 16, 2009

pai

Li agora há pouco, antes de ir dormir, um texto no blog do Sergio Leo sobre uma reportagem da revista Modern Painters falando do Robert de Niro, pai do Robert de Niro que todos conhecemos. Foi um pintor expressionista que teve muitos amigos interessantes no meio cultural – como o casal Henry Miller e Anais Nin. De acordo com o Sérgio, o Robert Sr fez um relativo sucesso nos anos 40, mas depois caiu no ostracismo. Pelo que entendi, o Sr fez nos anos 40 e 50 tudo o que a geração dos anos 70 acreditava estar inventando. Curioso, cliquei no link para a matéria em si (em inglês) e o que mais me chamou a atenção mesmo foi a foto acima.

Tem coisa mais gostosa do que esse olhar de pai e filho? Esse reconhecimento mútuo de amor e admiração e respeito. Duas pessoas que seguiram caminhos distantes e próximos. Pai e filho, vidas ao mesmo tempo distintas e parecidas. Falo por experiência própria: quando o olhar do meu filho se prende ao meu por alguns instantes – e olha que ele só tem dois anos e pouco – dá uma vontade imensa e inexplicável de acreditar em algo transcendental que justifique toda essa alegria que formiga no corpo.

Outra coisa que me chamou a atenção nesta reportagem: O Robert Jr mantém até hoje intacto o loft que o pai usava nos seus últimos anos de vida, na parte baixa de Manhatan (NY). O Sr foi para esta região antes de ela se tornar cool e chique.

Ah, depois do meu filho Pedro, acho que sou totalmente suspeito para falar destas coisas. Olha só, em vez de aprender um pouco sobre pintura, estou aqui falando sobre um simples olhar.

Pai é bicho bobo

Junho 15, 2009

Pai é bicho bobo mesmo. Hoje até que melhorei. Meus olhos não lacrimejam a cada novidade do Pedro, mas ainda assim me emociono com coisas tolas. Como ontem à tarde, por exemplo, no restaurante de um shopping, aqui em Goiânia.

O Pedro não queria comer um pedaço de abóbora. Então experimentei e fiz careta de quem estava gostando. Ele me olhou, prendendo o riso. Usei o dedão para sinalizar que a comida estava ok. Foi quando o Pedro então encarou o dedão e disse:

- Um.

Achei engraçado. Afinal nos momentos em que estou com o Pedro era a primeira vez que ele tomava essa iniciativa. Curioso, resolvi seguir. Levantei também o indicador, mas não falei nada, nem sinalizei nada a ele que era para começar a contar. Mesmo assim, ele soltou:

- Dosh.

Mostrei o dedão, o indicador e o dedo médio:

- Tesh.

E assim foi na sequência: “cato, quico, ses, xete, oto, novi, deeeeezzzz”

Fiz festa e bati palmas. Coisa boba, admito. Mas é que foi a primeira vez que ele contou até dez na minha frente sem eu pedir nem falar os números antes.

Pequenos clichês de uma vida de pai

Maio 23, 2009

Meu pai se separou da minha mãe quando eu tinha quatro anos e foi embora de Santos para Barra Mansa. Me visitava poucas vezes, mas nestas poucas vezes sempre havia coisas que eram como rituais, que na época eu não sabia, mas depois que ele morreu, em 1997, percebi que funcionaram como rituais, onde nossa relação se tornou mais próxima. Fatos que me fazem me lembrar dele com carinho, mesmo com o “apesar de” que antecede todos os relacionamentos.

Lembro-me quando acordava e sentia um cheiro forte e característico do desodorante Moderato Orvalho e sabia que ele havia chegado em casa, geralmente de surpresa. Ou então quando eu estava na sala do apê e sentia o mesmo cheiro vindo da porta que dava para o hall coletivo do andar em que morava e sabia que era ele chegando.

Sempre que ele ia a Santos, gostava de ir comigo no antigo supermercado Eldorado da Avenida Conselheiro Nébias, perto de casa, e fazia questão de comprar aquele queijo prato que vem envolvido em um plástico vermelho, e também um monte de coxinhas e pastéis que eram vendidos em um trailer ao lado do supermercado. Talvez meu vício por queijo até seja uma forma inconsciente de me recordar do meu pai.

As piadas nonsense como forma de espantar a tristeza também pode ser uma característica que eu peguei dele, uma forma de ter alguma herança herdada dele, algo que me fizesse saber que sou filho do Manoel Leijoto. Não sei. Ou foi isso ou foram os gibis do Homem Aranha ou os dois que me colocaram essa mania terrível de fazer piada de tudo.

Enfim. Sei que agora como pai, uma das minhas maiores alegrias é perceber que eu e meu filho, o Pedro, que fez dois anos agora no dia 11 de abril, criamos alguns códigos que só nós entendemos. São coisas que talvez não fiquem na memória nele ainda, como ficou o queijo prato, o desodorante e as piadas nonsense do meu pai. Mas que eu tenho certeza que na minha memória hão de me acompanhar até o meu último dia.

São coisas bobas. Tipo quando eu começo a implorar, dizendo “não” repetidamente. Ele me encara, sabe que estou pedindo um beijo e a sua boca é um misto de riso e bico para beijar. Semana passada, pela primeira vez, ele fez o contrário. Ele começou a dizer “não” e fechava os olhos.

Outra coisa parecida: quando eu olho para cima e ele procura o que estou tentando ver. Ele faz isso já rindo, porque sabe que vou beliscar seu pescoço. Ou quando eu começo a gritar “ahhhhhh” e ele faz igual. Ou quando eu arregalo bem os olhos e ele sabe que é um sinal para tentar enfiar os dedos neles. São coisas bobas, eu sei, mas que funcionam, acredito eu, como um código de pai e filho.

Quando ele era mais novo, eu gostava de levá-lo no Habib’s aos domingos. Hoje, vamos sempre em um restaurante que tem no primeiro piso do Flamboyant. Sempre que passamos ali perto, ele aponta e pede para “papar”. Sei que nesse caso para ele ainda não significa nada. Mas para mim quando fico muito tempo sem vê-lo fica até mais difícil passar perto de um Habib’s. Saudade boba de pai, né? 

Esses códigos, na minha leiga opinião de pai, é a nossa forma natural e espontânea de dizer “eu te amo” um ao outro. Logo ele vai entender o que significa essa frase e eu terei mais uma forma de me expressar a ele.

Digo isso tudo hoje porque tive um sonho engraçado, triste e impossível. Eu estava no Eldorado, comprando queijo prato embalado no plástico vermelho com o Pedro. E na hora eu olhava para o Pedro, mas sabia que era um sonho, que havia algo errado, porque era meu pai e eu que íamos lá. Acordei assim, pensando nisso.

Conversa ao telefone

Dezembro 9, 2008

A Mãe pede para eu telefonar para o Pai e eu ligo. A Vó atende e eu digo que quero falar com o Pai. Ela diz que o Pai não quer falar com a Mãe porque ele tem uma vida agora e não tem que falar mais com a Mãe. Nunca sei como a Vó sabe que eu vou passar o telefone para a Mãe quando o Pai atender. Mesmo assim eu peço de novo para falar com o Pai e ela, reclamando muito, chama ele sem nem perguntar como eu estou de saúde ou se estou com saudades, nem se estou indo para a Igreja. O Pai atende e nem falo com ele porque a Mãe pega o telefone e começa a reclamar que precisa de dinheiro para pagar as contas de casa, que a Filha deles, que também é minha Irmã, está doente, que sempre foi doente e precisa de dinheiro para tratamento, que se não fosse por isso nem ligava para ele. Ela pede para eu ir na banca, mas sem me afastar muito dela. Eu sei que a Mãe quer falar palavrão para o Pai, mas finjo que não sei e vou para a banca ver revista em quadrinhos. Sei que é só por cinco minutos. Porque a Mãe não gosta de falar palavrão nem para o Pai, então eu volto para ouvir o resto da conversa. A Mãe está chorando porque não consegue trabalho e a situação está difícil e a gente tá passando fome. Eu digo que é verdade, que hoje já são quase três da tarde e a gente só comeu uma banana e um pão seco, mas o Pai não pode ouvir e a Mãe percebe que estou do lado dela e enxuga as lágrimas que é para eu não ver que ela está chorando. Mas eu sei. Como também sei que o Pai disse que atrasou o salário dele, o que é mentira, mas ele diz com tanta certeza que faz a Mãe chorar de raiva. E ele diz que vai pedir dinheiro para uns amigos, que vai passar vergonha por isso, o que também é mentira, mas ele diz isso que é para a Mãe parar de pedir dinheiro. Ele diz que vai mandar amanhã, mas só manda dois dias depois. Eu olho o tênis furado e descubro uma trilha de formigas andando até uma árvore e vou brincar com elas. A Mãe me chama antes que eu jogue a primeira formiga da árvore para o chão, para ver ela caindo. O Pai quer falar comigo, ela diz. Eu não quero falar com ele. Mas ela insiste, é seu pai, fala com ele, coitado. Não entendo como a Mãe pode ter pena do Pai, falar que ele é coitado. Atendo o telefone e digo oi, pai. Com o “p” minúsculo mesmo porque eu estava triste. Oi, Filho, tá com saudade? Eu digo que sim e falo que é para ele mandar dinheiro porque a gente tá com fome. Ele diz que vai mandar, e que não mandou ainda é porque está sem dinheiro. Eu digo que a gente comeu só banana e pão hoje e pergunto o que ele comeu. Ele diz que tá com saudade de mim e eu pergunto se ele tá com saudade da Irmã também. Ele diz que sim. Eu começo a chorar no telefone porque eu também estou com saudade do Pai. Ele diz que é para não chorar, porque homem não chora. Eu digo que ainda sou criança e que posso chorar. Ele não fala nada. Ele pergunta como estou na escola e eu digo que estou indo bem, que ainda é setembro mas já passei de ano. E que na escola todo mundo tira sarro de mim por causa da cabeça grande. Ele diz que é para eu não ligar porque cabeça grande é sinal de inteligência e que ele tem bastante orgulho de mim porque sabe que eu vou ser arquiteto quando ficar grande. Eu concordo com ele e pergunto quando ele vem para cá. Ele diz que não sabe. A Mãe pede para falar com ele mais uma vez. Eu queria falar mais com o Pai, agora que já estamos falando mesmo. Mas a Mãe pega o telefone e diz que está na hora de desligar porque é a Mãe do meu Pai (minha Vó) que vai pagar a conta do telefone. A Mãe fala para o Pai que ficava muito sem graça de ligar a cobrar para pedir dinheiro e ouvir o que não precisa da Vó. E diz tchau. Eu pego na mão da Mãe e peço para a gente passar mais uma vez na banca para ver uma revista nova que chegou hoje. Ela diz que não tem dinheiro para comprar. Eu sei mãe, é só para olhar, digo para ela. Vamos embora que sua irmã está esperando a gente lá na escolinha dela, estamos atrasados, ela diz. E eu olho o telefone mais uma vez e lembro da Vó falando que meu pai tinha outra vida agora. Não entendi o que ela disse. Mas não pergunto nada paraa Mãe porque sei que ela vai ficar triste.

O avião e a árvore

Novembro 25, 2008

Um dia, quando meu filho estiver mais velho, vou contar uma história para ele refletir. Uma espécie de fábula, mas onde os personagens não são animais que falam, e, sim, um avião e uma árvore. Pensei nela hoje de manhã. Provalmente até lá, essa história estará bem mais elaborada. Dá até um conto infantil, acho. Por agora, segue apenas um rascunho meio conceitual do que quero narrar.

“Era uma vez um avião que gostava muito de voar. Ele ia para vários lugares, passeava bastante e conhecia muitas coisas legais. Um dia, fazendo uma de suas viagens de sempre, sem nenhuma novidade, nem nada importante para fazer, ele reparou em uma árvore muito bonita, grande, cheia de vida. Suas raízes eram grandes e profundas, iam lá no fundo da terra, deixando a árvore bem firme. Em volta da árvore, havia outras também bonitas, plantas diversas, flores e animais felizes com a água e os frutos que havia naquele lugar. Era algo bem bonito de se ver, bastante colorido. O avião passou “voando” e foi tão rápido que nem deu para ver tudo que havia lá embaixo de bonito e interessante. Por isso, ele voltou a passar lá outras vezes, mesmo que tivesse de desviar da sua rota original. O avião gostava de apreciar a grande árvore, e ver como ela era bonita e feliz.

Logo, de tanto admirar, começou a invejar e comparar as coisas boas de ser uma árvore com as coisas ruins de ser um avião. Pronto. Foi uma questão de tempo para começar a lamentar de ser um avião. Queria porque queria ser uma árvore, ter raízes fortes num lugar só e ali construir sua relação social. Passou a viajar menos, a voar menos com os amigos aviões, helicópteros e passarinhos. Ficava mais em seu hangar, olhando algumas árvores menores que havia por ali e dizendo para si que até elas, mesmo menores que a grande árvore, eram mais felizes que ele.

O tempo foi passando, e o avião começou a perceber que estava ficando meio enferrujado, sujo e até com teia de aranha… Um dia, cansado de não fazer nada, o avião resolveu voar de novo, passando pela árvore para ver como ela estava. Durante a viagem, o avião ficou pensando em tudo de bom que era ser uma árvore e em quão feliz aquela grande árvore estaria feliz naquele momento. Foi quando ele se aproximou de onde a árvore vivia que levou um susto.

Quase nada era como ele havia visto. A árvore ainda estava de pé, firme, mas em sua volta havia pouquíssimas árvores, quase nada de flores e outras plantas e os animais sumiram. Estava tão vazio ali que o avião viu um espaço grande o suficiente para pousar e parar ao lado da árvore. Queria conversar com ela.

Veio então nova surpresa. A árvore estava muito triste e disse que o sonho dela era ser um avião. Afinal, ser uma árvore também tinha seus poréns. Após um grande incêndio na floresta, muitas árvores perderam suas cores, os animais fugiram e ela e suas amigas não poderiam ir embora. “Feliz é você, avião. Que pode ir para onde quiser, quando quiser, tem uma bagagem cultural boa, conhece um monte de gente, tem muitos amigos. Eu estou presa aqui.” O avião contou então que também era infeliz porque queria ser uma árvore, ter raízes fortes em um lugar, viver ao lado de outras árvores e animais com quem poderia ser bastante amigo, já que todos se conheceriam bastante por causa de suas raízes numa mesma região. “Bobagem, avião, se você quiser, pode fazer um hangar onde você mais gostar, e ficar por ali.” Os dois ficaram conversando um tempão.

O avião então decidiu construir um hangar do lado da árvore, e eles se tornaram bons amigos. O avião, inclusive, trouxe vários novos amigos para a árvore conhecer, e ela apresentou suas amigas árvores para ele. E todos viveram felizes para sempre.

Moral da história: seria algo assim, não existe apenas um único caminho para ser feliz, por isso vc não precisa ser infeliz pelo que você é, e sim aproveitar suas características para ser uma pessoa feliz e amada.