Uma vez ouvi um cara dizendo que só tem idéia fixa quem é maluco. Não me recordo quem era, mas devia, com certeza, ser algum político explicando alguma mudança drástica de posicionamento (tipo apoiar um ex-adversário envolvido em escândalos absurdos). Estou recordando esta frase para dizer que – depois de tudo que li a respeito da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) – já não sei dizer qual a melhor solução para o jornalismo tupiniquim.
Posts Tagged ‘diploma’
O jornalista precisa de diploma?
Junho 25, 2009O que fazer agora?
Junho 19, 2009Passado o impacto, o susto, o ressentimento, é hora de avaliar como vai ficar o jornalismo agora que qualquer pessoa pode se candidatar a uma vaga no mercado. Li vários artigos e reportagens repercutindo a decisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em suspender a obrigatoriedade do diploma de jornalismo e do registro no Ministério do Trabalho para o exercício da profissão, mas por enquanto achei poucas propostas para o que eu considero o verdadeiro problema nosso: o jornalismo está em crise e nossa credibilidade está em baixa. Ninguém pode garantir nada, nem que a decisão do STF será benéfica nem que trará mais prejuízos ainda. Existem bons argumentos para todas as vertentes desta discussão, mas pouquíssimos dados concretos.
Certeza mesmo eu tenho de algumas coisas:
1) Sem a obrigatoriedade do diploma, as faculdades de jornalismo picaretas não devem conseguir mais segurar aqueles estudantes que no primeiro ou segundo semestre começam a se frustrar com a baixa qualidade do curso; não sei se os outros cursos vão melhorar ou se vão pipocar cursos de especialização para profissionais de outras áreas interessados em ingressar numa Redação;
2) Um diploma não é sinônimo de qualidade profissional, muito menos de ética; se a obrigatoriedade caiu é por se tratar de um modelo falido que não atendia às necessidades dos empresários, das fontes e dos leitores;
3) Os empresários donos de meios de comunicação são os maiores interessados na desregulamentação do jornalismo. Por vários motivos. Um deles é que é bem mais fácil doutrinar quem não passou quatro anos sendo ideologicamente martelado por professores nem sempre preparados, embasados em teorias nem sempre atuais e condizentes com a realidade do mercado de trabalho e com as necessidades do público. É mais ou menos a mesma política de algumas empresas que não pegam profissionais que ficaram muito tempo em um mesmo emprego porque este é carregado de vícios. Não estou dizendo que os empresários estão necessariamente mal intencionados. Não é isso. Acho que é mais uma questão de pragmatismo.
4) Qualquer um pode ser jornalista. E isso significa que tanto bons como maus profissionais de outras áreas ou mesmo gente sem formação nenhuma pode ingressar em uma Redação ou desempenhar qualquer função jornalística. Vai depender do dono do meio de comunicação ou do empresário interessado em uma assessoria de comunicação. E existem tanto bons como maus empresários, gente interessada em um jornalismo de qualidade ou preocupada em arrancar dinheiro de governos, políticos e da elite financeira.
5) Acredito também que o fato de qualquer um poder ser jornalista nos fez perder um pouco a aura de que somos profissionais preparados para lidar com as informações, mais aptos a filtrar o que é de interesse ou não da população. Por mais que haja críticos do nosso trabalho, ainda é enorme o número de pessoas que abrem um jornal e, independente da qualidade editorial, acreditam no que estão lendo. Boa parte disso se deve ao fato que acreditam que os autores dos textos são pessoas que estudaram para trabalhar nisso. É uma mentira, claro. Mas não sei como vai ser a reação dos leitores agora. Nem sei se vai haver mesmo um boom de picaretas se dizendo jornalistas.
Ok.
Mas e agora?
Eu sou a favor de uma regulamentação. Não somos os Estados Unidos, nem a Espanha, nem mesmo a Argentina. Deve haver um mínimo de qualificação profissional do jornalista, que esteja acima da decisão do empresário dono de um meio de comunicação. Afinal, nem todos os patrões são como as famílias Mesquita, Civita, Marinho ou como o Otávio Frias Filho (não sei se o restante da família Frias está envolvida com o Grupo Folha). Nem todos os empresários estão preocupados com um mínimo de qualidade. Basta uma andada pelo interior do Brasil. Será que a família Sarney, que controla o Maranhão e o Amapá estão preocupados com isso, por exemplo? Não basta dizer que nos EUA é diferente e esquecer toda a nossa realidade.
Acredito que todos os argumentos apontados em blogues e artigos sejam válidos, pró ou contra regulamentação, favoráveis ou não á necessidade de um diploma ou de uma especialização. A questão é saber qual é o mais viável aqui no Brasil.
Vejo pelo menos dois caminhos a seguir:
1) Criar um grupo de discussão – não sei se o que existe no Ministério do Trabalho desde o final do ano passado abrange todas as partes envolvidas, mas se sim então pode ser este – e tentar sacar qual a do jornalismo brasileiro, quais as necessidades do nosso público e para onde podemos ir, promover um debate, chamar todos os jornalistas interessados (formados ou não em jornalismo) e, mesmo que não haja um consenso (duvido muito que vá haver um), a proposta que tiver mais força ser encaminhada para o Congresso Nacional com o intuito de que seja aprovada uma nova regulamentação para nossa profissão. (Claro que se isso acontecer e for aprovada uma nova regulamentação, não significa que seja a resposta necessária. Talvez haja tantos interesses por trás que acabe criando um novo modelo falido);
2) Outro é sacar por conta própria qual é a do jornalismo tupiniquim e, caso o profissional esteja realmente preocupado com esse lance de qualidade e ética, fazer algo para, dentro do esquema, melhorar nossa profissão. Isso sempre ocorreu. Várias idéias que surgiram dos anos 60 para cá se tornaram modelos de jornalismo. Atualmente, existem vários grupos discutindo muita coisa interessante, que está acessível – na maior parte – para todo mundo que costuma fuçar em sites e blogues, que participa de grupos de discussão online etc.
Três coisas que precisam ficar claras:
1) Ser jornalista não é só saber escrever textos para um jornal impresso. Foi o que deram a entender os ministros ao justificarem seus votos;
2) A decisão do STF marca o fim de um modelo que não funcionava mais. O jornalismo está em crise, está havendo uma sobrecarga enorme de informações, e a nossa credibilidade está cada vez mais perto do ralo.
3) Quem afinal define qual o caminho que o jornalismo brasileiro deve seguir: a) sindicatos e entidades associativas; b) escolas de jornalismo; c) profissionais da impressa (formados ou não em jornalismo); d) leitores; e) empresários donos de meios de comunicação; ou f) anunciantes e políticos?
E mais uma coisa que pouca gente abordou:
1) Até agora ninguém soube dizer como ficam os concursos públicos com vagas para jornalistas. Se para ser jornalista não é obrigado ter diploma nem ser registrado os órgãos públicos vão poder exigir alguma qualificação? Quais serão os requisitos para se candidatar a uma vaga de assessor de imprensa? Não estou aqui buscando um argumento para atacar a decisão do STF, mas apenas expondo uma dúvida. Lá na Delegacia Regional do Trabalho de Goiás ninguém sabe de nada ainda.
****
Se bem que depois que eu vi isso no blog Contra a Clicagem Burra hoje, e se as faculdades de jornalismo aderissem a essa idéia, acho que faria mais uma vez o curso, só para sentar numa cadeira assim. Cliquem lá.
O diploma morreu, viva o jornalismo
Junho 18, 2009É difícil avaliar o que vai acontecer com o jornalismo daqui para frente, com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de eliminar a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão. Afinal, tudo isso vai passar pelo crivo dos donos dos meios de comunicação e pelas pessoas que sustentam financeiramente os órgãos de imprensa (não estou me referindo aos anunciantes nem aos leitores que compram espaço nos classificados).
Não sou nem contra nem a favor da obrigatoriedade do diploma. Defendo um curso básico antes de alguém ingressar na profissão: seja pela graduação, por uma especialização ou mesmo por um trainee como os oferecidos por Folha de São Paulo, Estadão, Globo e Grupo Abril. Mas o que me preocupa agora é ausência de uma regulamentação do jornalismo.
Afinal qualquer um pode hoje argumentar que faz jornalismo. Somos um país de 183,9 milhões de jornalistas. Não tenho medo de perder meu emprego para um “sem-diploma”, mas temo o que pode acontecer quando os “sem-diploma” começarem a fazer jornalismo. Afinal, o Brasil não é feito de Machados de Assis, Nelson Rodrigues e Clarice Lispector.
Vejo pontos positivos na decisão do STF:
1) Se os cursos de jornalismo quiserem se manter, vão ter de mudar radicalmente suas grades curriculares. Porque o argumento do diploma no final do curso já não serve como justificativa para ingressar em uma faculdade que não ensina nada de concreto. A completa ausência de qualidade na maioria esmagadora dos cursos foi uma das coisas que enfraqueceu muito o debate. Nem todas as mais de 400 faculdades vão conseguir se sustentar.
2) Ficou claro que os ministros do STF não conhecem nossa profissão, e, pior, muita gente leiga concordou com a decisão da Suprema Corte, como se isso fosse melhorar a qualidade dos meios de comunicação. Para mim, isso é mais uma prova de que nossa profissão está em séria crise (são vários os sinais emitidos recentemente, como por exemplo a repercussão do blog da Petrobras). Nossa credibilidade foi para o ralo. A decisão dos ministros pode servir como uma chacoalhada.
3) Foi mais uma prova de que nossa categoria é realmente desunida. Apenas seis sindicatos estiveram presentes durante o julgamento. Aposto que se fosse uma votação sobre o diploma de Direito, a OAB estaria em peso lá.
Esse discurso de que a obrigatoriedade do diploma fere a liberdade de expressão garantida na Constituição eu acho equivocado. Afinal, apesar de um jornal ser um espaço para debates, o jornalismo é – pelo menos acredito eu – uma técnica. E existe espaço para colaboradores, intelectuais, articulistas, leigos e quem mais quiser dar um pitaco em vários meios de comunicação – sejam impressos ou virtuais. Tem a internet, onde qualquer um pode criar um blog e escrever sobre o que quiser e ser mais respeitado e lido do que muitos jornais ditos sérios.
A minha pouca experiência na profissão – comecei a trabalhar como jornalista de fato em 2001 – mostra que há um pouco de verdade e um tanto de equívoco quando o ministro Gilmar Mendes aponta que jornalistas formados em jornalismo (hoje isso não é mais redundante) não agem com mais ética e responsabilidade ao tratar de um fato.
Acredito que os jornalistas formados em jornalismo tem mais noção de seus erros e, dependendo da consciência de cada um, se sentem mais culpados ou não. Mas o que pude perceber por aí é que jornalista nos enxergamos como empregados de um dono de jornal que normalmente não é jornalista (ou não era até ontem). E nós o obedecemos. E aí, entre o leitor e o dono do jornal, já ouvi milhares de justificativas e argumentos para o profissional ficar com o segundo. O diploma não garante que o jornalista vá seguir o manual do jornalismo ideal e desafiar o patrão quando este mandar fazer uma matéria com “um viés otimista do governador”.
Ainda sobre esse lance de responsabilidades, lembro de um jornal – acho que em Franca (SP) – onde a Redação foi dominada por advogados, pelo medo de processos e indenizações. E lá quem apita são eles, formados em Direito mas que hoje podem ser chamados de jornalistas.
Aqui em Goiás, tem um dono de um meio de comunicação que já expressou várias vezes o desejo de contratar profissionais de “todas as áreas de conhecimento” para escrever matérias jornalísticas “com conhecimento científico”.
O argumento de que a regulamentação do jornalismo é de 1969, no auge da ditadura, que foi uma forma de expulsar os intelectuais dos jornais, e tudo mais neste sentido, não é tão válido assim hoje porque todo mundo tem acesso ao jornal como colaborador. Depende do dono do jornal e não do diploma do empregado. E isso não exime a nossa profissão de uma regulamentação. O jornalismo pode sim ser prejudicial à sociedade, tanto quanto um médico irresponsável ou um advogado picareta. Tantos casos famosos por aí.
Quem já tem o diploma na mão, acho que não tem do que lamentar. Até fiz isso ontem à noite, mas agora vejo que o lance é correr para frente. Me especializar, estar sempre atento, estudando, acompanhando as novidades, lendo. Algo que já fazia, mas que ao entrar no “mundo virtual” percebi precisar aprofundar ainda mais.
E outra: a decisão do STF foi contra a obrigatoriedade do diploma. E não contra a validade do mesmo. Os cursos de graduação agora é que vão dizer se vale a pena ou não estudar jornalismo. Se alguém quer ser jornalista e existe um curso de jornalismo que oferece uma gama interessante de , porque essa pessoa vai escolher outro curso? Muita gente entrava no curso de jornalismo não por causa da obrigatoriedade do diploma, mas era essa necessidade – na minha opinião – que mantinha o estudante os quatro anos na sala de aula.
O presidente da ANJ disse que tudo vai continuar na mesma. Que os jornais, em sua maioria, vão continuar contratando gente com diploma de jornalista. Não sei até onde isso é verdade. Consigo enxergar, principalmente fora dos grandes centros, muitos empresários e políticos empurrando jovens parentes ou filhos de amigos para dentro de uma Redação. Seja por iniciativa da pessoa ou do dono de jornal.
Sei de uma coisa. Não existe um mundo ideal. E o Brasil não é nem os EUA nem a Europa. Os donos de jornais daqui – com algumas exceções – não pensam como os grandes empresários da imprensa mundial. Nem todos vão atrás de “gente qualificada”. Vão atrás do dinheiro e de gente que faça o dinheiro aparecer. Profissionais que façam o patrão conquistar a elite endinheirada e o público leitor. Melhor ainda se der para satisfazer também o ego e não só o bolso do patrão, criando um jornal com cara de jornal (mas não necessariamente com o conteúdo de um). Para ganhar dinheiro com um jornal não é preciso fazer jornalismo.
E mais: A internet ajuda em parte o cidadão a não ser enganado pelos meios de comunicação, já que ainda é uma minoria que acessa o mundo www e mesmo assim para usar email, orkut e msn. A quantidade de informações é gigante, as mentiras publicadas são desmentidas via concorrentes, tevês, sites e blogs, mas quem garante que o desmentido não é uma nova mentira.
Li no blog do Rogério Christofoletti (aliás, muito bom o blog, recomendo), que o Ministério do Trabalho criou um grupo no final do ano passado para trabalhar em uma nova regulamentação do jornalismo. Ainda segundo o blog, o projeto estaria em banho-maria. Acho que isso deveria ter ficado pronto antes da decisão do STF, mas agora é ir atrás disso e começar uma nova luta.
Ah, mas nos Estados Unidos o diploma não é obrigatório. Entretanto, há pesquisas apontando que as empresas jornalísticas americanas preferem contratar pessoas que saíram de escolas de jornalismo. Aqui no Brasil, além de não se exigir nem mais primeiro grau completo, as escolas de jornalismo são uma fiasqueira.
Mais do que nunca precisamos nos reafirmar. Transformações devem ocorrer. As redações vão sentir o impacto da decisão do STF. Talvez não de forma imediata. Mas jornalistas ainda são necessários. E agora acho que está mais do que na hora de mostrarmos isso. Senão a tendência é só piorar. Ao desregulamentar nossa profissão, os ministros não acabaram com o jornalismo, mas apenas escancaram algo que já estava evidente. Estamos em crise.
Para ler mais sobre isso:
Tem muita gente escrevendo muita coisa interessante sobre a decisão do STF e suas consequências.
- Rogério Christofoletti;
- Alec Duarte;
- César Valente;
- Alberto Dines;
- Marcelo Soares.
- Agnes Arato
- João Porto
- Sabine Righetti
- Laerte Braga;
- Sérgio Murilo de Andrade;
- Elias Machado;
- Túlio Vianna;
- André Forastieri;
- Jorge Rocha;
- Rafael Galvão;
- Sérgio Leo;
- Pedro Doria.
