O que fazer agora?

Junho 19, 2009

Passado o impacto, o susto, o ressentimento, é hora de avaliar como vai ficar o jornalismo agora que qualquer pessoa pode se candidatar a uma vaga no mercado. Li vários artigos e reportagens repercutindo a decisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em suspender a obrigatoriedade do diploma de jornalismo e do registro no Ministério do Trabalho para o exercício da profissão, mas por enquanto achei poucas propostas para o que eu considero o verdadeiro problema nosso: o jornalismo está em crise e nossa credibilidade está em baixa. Ninguém pode garantir nada, nem que a decisão do STF será benéfica nem que trará mais prejuízos ainda. Existem bons argumentos para todas as vertentes desta discussão, mas pouquíssimos dados concretos.

Certeza mesmo eu tenho de algumas coisas:

1) Sem a obrigatoriedade do diploma, as faculdades de jornalismo picaretas não devem conseguir mais segurar aqueles estudantes que no primeiro ou segundo semestre começam a se frustrar com a baixa qualidade do curso; não sei se os outros cursos vão melhorar ou se vão pipocar cursos de especialização para profissionais de outras áreas interessados em ingressar numa Redação;

2) Um diploma não é sinônimo de qualidade profissional, muito menos de ética; se a obrigatoriedade caiu é por se tratar de um modelo falido que não atendia às necessidades dos empresários, das fontes e dos leitores;

3) Os empresários donos de meios de comunicação são os maiores interessados na desregulamentação do jornalismo. Por vários motivos. Um deles é que é bem mais fácil doutrinar quem não passou quatro anos sendo ideologicamente martelado por professores nem sempre preparados, embasados em teorias nem sempre atuais e condizentes com a realidade do mercado de trabalho e com as necessidades do público. É mais ou menos a mesma política de algumas empresas que não pegam profissionais que ficaram muito tempo em um mesmo emprego porque este é carregado de vícios. Não estou dizendo que os empresários estão necessariamente mal intencionados. Não é isso. Acho que é mais uma questão de pragmatismo.

4) Qualquer um pode ser jornalista. E isso significa que tanto bons como maus profissionais de outras áreas ou mesmo gente sem formação nenhuma pode ingressar em uma Redação ou desempenhar qualquer função jornalística. Vai depender do dono do meio de comunicação ou do empresário interessado em uma assessoria de comunicação. E existem tanto bons como maus empresários, gente interessada em um jornalismo de qualidade ou preocupada em arrancar dinheiro de governos, políticos e da elite financeira.

5) Acredito também que o fato de qualquer um poder ser jornalista nos fez perder um pouco a aura de que somos profissionais preparados para lidar com as informações, mais aptos a filtrar o que é de interesse ou não da população. Por mais que haja críticos do nosso trabalho, ainda é enorme o número de pessoas que abrem um jornal e, independente da qualidade editorial, acreditam no que estão lendo. Boa parte disso se deve ao fato que acreditam que os autores dos textos são pessoas que estudaram para trabalhar nisso. É uma mentira, claro. Mas não sei como vai ser a reação dos leitores agora. Nem sei se vai haver mesmo um boom de picaretas se dizendo jornalistas.

Ok.

Mas e agora?

Eu sou a favor de uma regulamentação. Não somos os Estados Unidos, nem a Espanha, nem mesmo a Argentina. Deve haver um mínimo de qualificação profissional do jornalista, que esteja acima da decisão do empresário dono de um meio de comunicação. Afinal, nem todos os patrões são como as famílias Mesquita, Civita, Marinho ou como o Otávio Frias Filho (não sei se o restante da família Frias está envolvida com o Grupo Folha). Nem todos os empresários estão preocupados com um mínimo de qualidade. Basta uma andada pelo interior do Brasil. Será que a família Sarney, que controla o Maranhão e o Amapá estão preocupados com isso, por exemplo? Não basta dizer que nos EUA é diferente e esquecer toda a nossa realidade.

Acredito que todos os argumentos apontados em blogues e artigos sejam válidos, pró ou contra regulamentação, favoráveis ou não á necessidade de um diploma ou de uma especialização. A questão é saber qual é o mais viável aqui no Brasil.

Vejo pelo menos dois caminhos a seguir:

1) Criar um grupo de discussão – não sei se o que existe no Ministério do Trabalho desde o final do ano passado abrange todas as partes envolvidas, mas se sim então pode ser este – e tentar sacar qual a do jornalismo brasileiro, quais as necessidades do nosso público e para onde podemos ir, promover um debate, chamar todos os jornalistas interessados (formados ou não em jornalismo) e, mesmo que não haja um consenso (duvido muito que vá haver um), a proposta que tiver mais força ser encaminhada para o Congresso Nacional com o intuito de que seja aprovada uma nova regulamentação para nossa profissão. (Claro que se isso acontecer e for aprovada uma nova regulamentação, não significa que seja a resposta necessária. Talvez haja tantos interesses por trás que acabe criando um novo modelo falido);

2) Outro é sacar por conta própria qual é a do jornalismo tupiniquim e, caso o profissional esteja realmente preocupado com esse lance de qualidade e ética, fazer algo para, dentro do esquema, melhorar nossa profissão. Isso sempre ocorreu. Várias idéias que surgiram dos anos 60 para cá se tornaram modelos de jornalismo. Atualmente, existem vários grupos discutindo muita coisa interessante, que está acessível – na maior parte – para todo mundo que costuma fuçar em sites e blogues, que participa de grupos de discussão online etc.

Três coisas que precisam ficar claras:

1) Ser jornalista não é só saber escrever textos para um jornal impresso. Foi o que deram a entender os ministros ao justificarem seus votos;

2) A decisão do STF marca o fim de um modelo que não funcionava mais. O jornalismo está em crise, está havendo uma sobrecarga enorme de informações, e a nossa credibilidade está cada vez mais perto do ralo.

3) Quem afinal define qual o caminho que o jornalismo brasileiro deve seguir: a) sindicatos e entidades associativas; b) escolas de jornalismo; c) profissionais da impressa (formados ou não em jornalismo); d) leitores; e) empresários donos de meios de comunicação; ou f) anunciantes e políticos?

E mais uma coisa que pouca gente abordou:

1) Até agora ninguém soube dizer como ficam os concursos públicos com vagas para jornalistas. Se para ser jornalista não é obrigado ter diploma nem ser registrado os órgãos públicos vão poder exigir alguma qualificação? Quais serão os requisitos para se candidatar a uma vaga de assessor de imprensa? Não estou aqui buscando um argumento para atacar a decisão do STF, mas apenas expondo uma dúvida. Lá na Delegacia Regional do Trabalho de Goiás ninguém sabe de nada ainda.

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Se bem que depois que eu vi isso no blog Contra a Clicagem Burra hoje, e se as faculdades de jornalismo aderissem a essa idéia, acho que faria mais uma vez o curso, só para sentar numa cadeira assim. Cliquem lá.

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2 Respostas para “O que fazer agora?”

  1. Rodrigo N. Leles Diz:

    É… esse lance dos Concursos Públicos vai pegar viu… Vai ter mandado de segurança que não acaba mais.

  2. Carla Sehn Diz:

    O enxugamento, o encolhimento e o emburrecimento das redações já vinham ocorrendo há vários anos, mesmo com o diploma. Quero saber como vai ficar o perfil do assessor de imprensa. É meio improvável que um cliente sério (público ou privado) resolva contratar alguém que não circule bem entre seus pares. Quem sabe vem aí um paradoxo para os jornalistas que sempre torceram o nariz para a assessoria. Já imaginou: sem diploma para entrar numa redação, mas obrigatoriamente diplomado e experiente para ser assessor… Ou uma pequena vingança chamada o último reduto da reserva de mercado.


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