Cartas para ninguém

Janeiro 16, 2009

Ia escrever uma carta para a solidão. Mas sempre que estou sozinho, ela vem ao meu encontro. E temos passados longos momentos juntos. Talvez ela goste muito de mim. Mesmo cansada de saber o que penso. Já lhe falei tudo tantas vezes e ela não sai de perto. Está sempre ali, a solidão doída, sentada, naquela cadeira azul que não combina nada com o chão vermelho esbranquiçado.

Ia escrever uma carta para a saudade. Sobre os amigos que sinto falta e que estão longe. Antes que inicie as primeiras linhas, ela bate à porta e vem se sentar no meu colo. Trocamos confidências leves no começo, e então ela tenta me agredir. Não faço nada. Quanto mais a gente reage, mais violenta ela é. A saudade espera eu dormir para ir embora. Acordo pela manhã sabendo que à noite ela estará aqui novamente.

Ia escrever uma carta para a paixão. Pedir que ela me devolvesse a identidade, minha visão e meus outros sentimentos. Implorar para que me entregasse os papéis e retratos onde estão toda minha vida passada. E sobre os planos futuros, queria dizer à paixão que eles me pertencem. Porém, a paixão, não sei como, descobre quando vou escrever para ela, arromba a porta e entra. Então rasga os papéis, devora meus dedos, controla meus movimentos e só me deixa o medo da morte.

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