Arquivo para Janeiro, 2009

Três formas de gritar em silêncio – 1

Janeiro 19, 2009

Os dedos
A mulher parada na calçada contava os dedos. As duas mãos apertadas, na altura do peito, a uns vinte centímetros do corpo. Ela olhava as mãos. Os dedos se mexiam, e ela parecia contá-los inúmeras vezes, sem nem respirar. Como se não houvesse mais pessoas ao seu lado, nem carros, nem ruas, nem prédios, nem cidade. A mulher estava ali, parada. Para ela, os dedos bastavam. Magra e barriguda, lábios finos, tinha o nariz arrebitado, as bochechas e testa vermelhas. Uma figura curiosa, inusitada. Tinha traços saídos dos quadrinhos de Tin-Tin. O cabelo em corte masculino. As roupas que não combinavam. Nada parecia incomodá-la. Na verdade, e eu percebi isso enquanto me aproximava, ela estava desesperada, perdida em seus dedos. A chuva começara a cair, grossa e pesada. As folhas velhas das árvores do bosque decadente começaram a cair em cima da mulher parada. E ela nem se importava. Sua cabeça, agora molhada, estava preocupada apenas com os dedos. Ao chegar perto dela, percebi seus lábios movendo-se nervosamente. Ela não mexia os dentes, apenas os lábios. De um jeito que fazem os desesperados quando querem gritar sem fazer barulho. Nesta hora, alguns começam a falar rápido demais. Talvez nem ela soubesse o que estava fazendo ali. A mulher estava parada na calçada, mas talvez para ela o que parou mesmofoi a vida. Há tanto tempo quanto seus dedos podiam contar.

Mendingando amor

Janeiro 18, 2009

Ajuda eu. Colabore. Dê de alimentar a esse pobre e fraco coração que precisa continuar batendo para sustentar uma família de músculos, órgãos, pele e ossos. Eu podia estar roubando, eu podia estar matando, mas eu estou aqui pedindo com toda educação um pouco de atenção. Não quero muito, só o que a moça achar que pode me dar. Eu não sou vagabundo não, moça. Sou trabalhador. Eu vendo poesia. Se a moça quiser, eu faço uma agora. “Abraço, se não for amizade. Beijo, só se for de verdade. Não, não vou beber de saudade. Não, não quero amor de caridade.” Se eu pudesse, estaria lhe dando todo o amor que merece, mas se estou aqui, pedindo, é por necessidade. Eu fui roubado, fui furtado. Sem eu perceber, me levaram todos os sentimentos bons que eu tinha, me deixaram aqui sem proteção nenhuma para a angústia da solidão. Só quem sabe o quanto dói um amor ausente, entende o que é a humilhação de estar aqui esmolando um pouco de seu carinho. Ajuda eu e Deus há de ajudar a moça a nunca passar por isso. Se a moça não puder contribuir, desde já quero deixar registrado meu muito obrigado pelo tempo disperdiçado. Deus há de lhe abençoar.

Quero te contar uma coisa

Janeiro 17, 2009

Vem cá, que te quero contar uma coisa. Sim, quero te contar os segundos que demoram a passar longe de ti. Os dias que se foram desde que te conheci. Te conto as folhas amarelas que vi cederem ao vento neste inverno quente e seco. A chuva que caiu ontem à noite e parece que quase ninguém viu. Te conto tudo que quiser ouvir. Tudo que te faça sorrir.

É claro que te conto tudo, sim. Cada um dos teus 10 dedos de tuas duas mãos, cada um dos 10 dedos de teus dois pés, teus dois olhos expressivos e esse teu sorriso tão charmoso e único. Quero te contar os dentes da boca, os lábios, cada fio desses longos cabelos, cada pinta em teu corpo e as batidas de teu coração. Vem cá, para te contar cada pedacinho de você que vou beijar. Cada centímetro que falta para meus lábios dizerem que já provaram tudo teu.

Venha logo. Vou te contar tudo que imaginei a gente fazendo. E o que deixamos de fazer. Os olhares trocados, os pêssegos não descascados, os guardanapos manchados, os copos largados e os beijos molhados. Quero te contar em conto o que sei da vida. Te contar um, dois, três, dez. Te conto até onze motivos para estarmos juntos agora.

Cartas para ninguém

Janeiro 16, 2009

Ia escrever uma carta para a solidão. Mas sempre que estou sozinho, ela vem ao meu encontro. E temos passados longos momentos juntos. Talvez ela goste muito de mim. Mesmo cansada de saber o que penso. Já lhe falei tudo tantas vezes e ela não sai de perto. Está sempre ali, a solidão doída, sentada, naquela cadeira azul que não combina nada com o chão vermelho esbranquiçado.

Ia escrever uma carta para a saudade. Sobre os amigos que sinto falta e que estão longe. Antes que inicie as primeiras linhas, ela bate à porta e vem se sentar no meu colo. Trocamos confidências leves no começo, e então ela tenta me agredir. Não faço nada. Quanto mais a gente reage, mais violenta ela é. A saudade espera eu dormir para ir embora. Acordo pela manhã sabendo que à noite ela estará aqui novamente.

Ia escrever uma carta para a paixão. Pedir que ela me devolvesse a identidade, minha visão e meus outros sentimentos. Implorar para que me entregasse os papéis e retratos onde estão toda minha vida passada. E sobre os planos futuros, queria dizer à paixão que eles me pertencem. Porém, a paixão, não sei como, descobre quando vou escrever para ela, arromba a porta e entra. Então rasga os papéis, devora meus dedos, controla meus movimentos e só me deixa o medo da morte.

Boas idéias para não serem usadas

Janeiro 13, 2009

Tem uma lanchonete aqui perto do jornal que é frequentada por muitas mulheres bonitas, mas o preço dos salgados é muito caro. Então pensei num bom slogan para o lugar: “Aqui se paga não pelo que se come, mas pelo que se pode comer.”

Hoje começa o BBB 9 e me lembrei de uma boa campanha publicitária contra a rubéola que o governo estadual aqui de Goiás perdeu ano passado. É que um goiano foi obrigado a abandonar o BBB 8 porque tinha a doença. “Ele perdeu a chance de ganhar R$ 1 milhão. Você quer perder o quê? Vacine-se.”

Um bom slogan para a mudança ortográfica: “Nada a tremer nem a tremar em 2009.”

E uma frase para dar trabalho aos revisores do jornal: “Não pára para comer geléia porque senão vai perder a estréia de um filme com uma boa idéia sobre um motorista que quebrou o para-choque e não pode continuar sua trajetória.”