“Aonde for não quero dor”

Dezembro 8, 2008

Aquela maldita desgraçada. Nunca fiz nada contra ela e agora estou aqui pagando esse mico filho da puta. O delegado não sabe o que é amar uma pessoa e não ser correspondido. O idiota não entende de amor. Nunca sentiu aquela paixão fulminante que aperta o coração da gente e faz doer cada centímetro cúbico de músculo. Uma mão invisível que tampa parte da vista e centraliza tudo numa só coisa: ela. Eu a amei desde aquele dia no shopping. Ela estava linda. Cabelo loiro curto, sobrancelhas suaves, lábios carnudos, magra e com os peitos durinhos que cabem nas minhas mãos. Do jeito que eu gosto. E ela sorriu para mim. Sei que sorriu. E foi para mim. Um sorriso tão doce. Deve ser uma moça bem-humorada. E não há nada melhor que uma linda garota com bom humor. Só que eu não podia chegar nela ali no shopping. Carregando compras de supermercado. Fui atrás dela. E depois de muito trabalho descobri endereço, telefone, com quem mora, que academia freqüenta e o que faz fora do horário de trabalho. Fiquei de campana em frente ao seu prédio por horas. Tentei ser o mais discreto possível. Tudo para estar no momento certo de abordá-la. Só que nunca aparecia a hora certa. Sempre tinha um empecilho. Tinha de ser perfeito. Ela merecia isso. Ela era tudo para mim. Confesso que fiquei muito nervoso e que posso tê-la assustado. Mas os telefonemas eram necessários. Ela precisava saber. Precisava entender. Agora isso. O delegado fica me ameaçando. Diz que não quer saber mais de eu ficar atrás dela. Que não posso nem pensar nela. Ah, delegado, tu não sabe o que é amor. A polícia não pode prender meus sentimentos. E minha mãe veio comigo aqui na delegacia. Ficou assustada quando os policiais foram lá em casa. Os vizinhos ficaram olhando na calçada.
“O que meu filho fez, doutor delegado?”
“Ele fica ameaçando moças por aí, senhora.”
Eu? Ameaçando? Amar sempre foi arriscado, delegado. Fiquei com raiva. Vergonha. Que humilhação. Mas tudo bem. Eu sei que sempre vou amar essa garota.

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