A parte mais difícil naquela noite foi saber discernir a mulher que inventei para mim e a que estava ao meu lado. Não devia tê-la acompanhado na bebida. Quanto do que se construía no instante em que ela disse “sim, eu saio com você”, quanto daquilo era uma criação involuntária de meus reprimidos desejos, frustrações e carências? Talvez só Deus soubesse. E se Deus não existir, então ninguém poderia me ajudar.
Ela me deu beijos que existiram sem terem acontecido. E sempre que eu lhe perguntava com um toque em sua nuca se aquilo tudo era real, a resposta vinha em cabelos ondulados. Seus beijos eram esquivos e roubados, que não me deixavam certezas de nada e ao mesmo tempo me puxavam cada vez mais. É importante explicar que eu não alcançava sua língua nunca, mas os beijos em espirais dela me sugavam tal qual um redemoinho. Ela me beijava com o queixo, o pescoço, a nuca e nunca me deixava alcançar a resposta em sua língua.
Ajudaria a entender o que se passava naquele instante se dissesse que naquela noite, antes da situação do carro, houve a situação do bar. Nós conversamos sobre várias coisas, e o que mais me agradava era fazê-la sorrir. Eu não queria deixá-lá beber muito, por isso comecei a beber naquela noite, para ditar o ritmo e para irmos devagar, para que não houvesse nenhum arrependimento. Mas fui eu quem acabou ébrio e então foi como se tivesse me desprendido de todos os poréns. Na verdade, o que aconteceu é que conforme eu me livrava da indiferença, ela me deixava mais confuso. Ela me fez perder a identidade, apagar as fotografias, me deixou sem ter como distinguir. Ela e o álcool.
Eu sabia que aquele era o instante que deveria matar a ficção e seus desdobramentos e avançar na garota real que estava ali na minha frente. O beijo era a resposta. O que eu tive foram apenas sinais dispersos e sugestões contraditórias. A conta-gotas. Eu sabia que quem estava ali naquele carro aquela noite era “eu e ela” e não “nós”. Nunca “nós”. Quando naquele dia em que ela me disse “eu nunca vou te beijar hoje”. O “hoje” era a fechadura quebrada na porta, a única janela sem trinco na casa, o baralho frouxo que faz desmoronar o castelo. Seus olhos escapavam dos meus como se o beijo que existiu sem ter acontecido nem tivesse existido também.
Enfim eu deveria saber que se o que me atraía nela era sua demonstração de certeza em tudo, mesmo quando era perceptível que não se podia ter certeza (e cabe ressaltar aqui que aquela postura era tão distinta da minha, que sempre questionei até mesmo as questões que formulava), se aquilo nela me atraía tanto e se eu me apaixonei foi quando a vi chorando, e também quando ela deu uma risada tão sincera e feminina de uma piada minha, deveria ter imaginado que a partir daquela altura eu estaria fazendo dela uma invenção e que talvez o choque não fosse tão macio.