Da minha mesa eu observava todos os dias, todas as tardes, mais ou menos no mesmo horário, quando a moça partia, e foi num destes dias, numa destas tardes, mais ou menos no mesmo horário, quando eu a vi em pé conversando, atrasada, ela não estava agindo como se fosse embora tão cedo; aliás, parecia que nunca mais recolheria suas coisas, do jeito que ela estava ali parada, e eu precisando levantar da mesa e ir para a rua trabalhar, mas desde o instante que a vi em pé de lado para mim, conversando e rindo, como se não precisasse mais voltar para sua casa, desde este instante eu percebi, não que fosse algo proposital, e sim como quando você abre um livro, sei lá, numa página qualquer, e pesca uma frase como quem não quer nada, tipo acha muito interessante aquilo e começa a ler o livro inteiro, a partir daquela frase de uma página qualquer: “aquelas notas subindo e baixando, dando voltas concêntricas sobre um pequeno ponto desconhecido, mas sem perderem a continuidade, de certa forma, disse baixinho, de certa forma Irene era assim”*; pode ser que ela, a garota de todos aqueles dias, todas aquelas tardes, mais ou menos no mesmo horário, talvez ela também fosse assim; é preciso estar esperto, mesmo quando se está desatento, para sentir que alguma coisa mudou; e alguma coisa mudou naquele instante em que a vi conversando em pé, esquecendo-se de ir embora; era um dia normal, uma tarde comum, mais ou menos no mesmo horário, e eu precisava sair; foi quando percebi que amar é inevitável.
*trecho de um livro de Caio Fernando Abreu.
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Dezembro 2, 2008 às 3:51 pm
Se isso é breguice, não sei o que tá na moda. ;S