Arquivo para Novembro, 2008

este idiota é o cara da sua vida?

Novembro 30, 2008

Madrugada de janeiro. O telefone toca no quarto de Joana. Ela não quer atender porque sabe quem é. Alguém que seu atual namorado não conhece, mas já ouviu falar. E mal. O problema é que Joana não percebeu que Jeffrei, seu namorado, acordou com o toque do telefone e resolveu atender.

- Oi, quem é? – pergunta Jeffrei.
- Quem é você, cara? É da casa da Joana?
- Sim. Posso ajudar.
- Você trabalha para ela? É alguma espécie de secretário dela?
- Não.
- Então não pode fazer nada por mim. Passa para ela.
- É para você.
- Alô.
- Quem é esse cara? Você trepou com ele?
- Quem é? Hã, Charles, o que você… Sabe que horas são?
- E você sabe que eu te amo? Por que faz isso comigo?
- Ah, não, por favor, desculpe, mas hoje não posso falar com você. São três da manhã.
- Eu te amo, sempre te amei e sempre vou te amar. Não existe outra mulher para mim. E já são quatro da manhã.
- Ei, eu disse que não posso falar com você. Se você continuar insistindo, não me ligue nunca mais.
- Por que você faz isso comigo?
- Aconteceu alguma coisa? Está tudo bem? Por que eu preciso dormir. Tenho de acordar daqui a duas horas e meia para ir para Anápolis, numa reunião de com meus chefes. Tchau, Charles.
- Eu te amo, meu amor. Vo… -Joana desliga o telefone antes de ele terminar a frase.
- O que ele queria, Jô?
- Nada. Estava bêbado.
- Você quer que eu converse com ele amanhã.
- Não. Pelo amor de Deus. É só um bêbado. E agora que ele falou com você, deve ter ficado com medo. Não liga mais.

Uma semana se passa. Três horas da manhã. O telefone toca. Joana e Jeffrei acordam. Ele olha as horas, olha para o rosto de sua namorada e atende.

- Oi, Charles.
- Eu te conheço, cara?
- Não, mas o dia que me conhecer vai se…
Joana pega o telefone antes que o advogado terminasse a frase. Ela sabe que Charles gosta das provocações, porque é uma chance de fazer disso um escândalo. E aí sim ela não teria paz.
- Charles, é você?
- Sabe, estava pensando, esse negócio de cara metade não existe.
- Por favor, Charles, eu vou ter de ser mais drástica com você?
- Você ama esse filho da puta?
- Charles, vá toma no cú.
- Me diz isso, só isso. Você acha que ele é o homem da sua vida?
- Amo, Charles, ele é o homem da minha vida. Agora tchau.
Jeffrei olha para os olhos de Joana e sorri. Olha para o telefone e faz cara de bravo. Ameaça pegar o telefone. Joana afasta a mão com a qual segura o fone.
- Mas como você pode dizer que ele é o homem da sua vida? Você conheceu todos os homens do mundo para poder chegar a esta conclusão. E se por acaso o homem da sua vida está vivendo em outra cidade, em outro país, na China, está chegando de ônibus lá de São Paulo, ou quem sabe ali do outro lado da rua, no apartamento do sétimo andar do edifício em frente. Você nunca vai descobrir porque acredita que este idiota é o cara da sua vida.
- Tá bom, Charles, você tem razão, agora deixa eu dormir, por favor. E não me liga mais. Se não vou falar com sua namorada. A Karine me disse que você tá namorando. Eu descubro quem é e vou lá falar com ela.
- O que estou querendo dizer é esse negócio de a pessoa da nossa vida não existe. Eu sei que por um tempo você teve uma queda por mim. Eu também tive. Ainda tenho. Mas eu sei que você não é a mulher da minha vida.
- Ó, que pena. Poxa…
- Não, espera, deixa eu terminar. Você nunca vai encontrar o homem da sua vida. Atualmente devem existir alguns milhões de homens em idade, saúde e condições de procriar com você. Quantos deles devem fazer o seu tipo? Vamos dizer que metade. Tá, tá, sei que você é exigente, então, um quarto destes milhões de homens do mundo. E se a sua cara metade nasceu na Rússia? Você vai deixar ele de lado só porque ele não sabe falar sua língua e mora do outro lado do mundo?!?
- Olha, eu sei que você está ligando do seu celular, por isso vou ser boa com você, não quero que você gaste o seu dinheiro.
- Não, espera. O que é a cara metade de uma pessoa se o seu tipo de homem é influenciado pela mídia, se você passa a gostar das pessoas porque elas se parecem com o Rodrigo Santoro ou o Brad Pitt, se você acha atraente um tipo de cara porque ele lembra seu pai, porque ele te engana dizendo coisas que nem ele acredita? Como você pode dizer que ama alguém, se você não dá chance para saber se não existe outro homem que seja melhor do que este que você está aí. E eu não duvido que existam muitos melhores que esse daí. Mas, antes que você desligue, pergunte para você mesma, você ama esse cara? Ele realmente te ama? Ou está com você porque você é o tipo de garota que ele gostaria de ter. Uma boa foda, daquelas que dá para mostrar pros amigos e uma mulher que não reclama. E se ele for viado, mas tem medo de assumir, e por isso está com você. Você já reparou se ele fica olhando muito pros outros caras? Eu aposto que ele fica olhando.
- Tá, tá bom. Agora deixa eu dormir.
- Eu est… – Joana desliga o telefone.

Joana coloca o telefone no chão. Deita. Aproxima seu rosto ao de Jeffrei. Puxa o cobertor até a altura dos ombros. Jeffrei passa a mão em seus cabelos, aperta a cabeça dela levemente contra a sua. Ele a beija. Ela interrompe.

- Como você sabe que me ama?

Pesadelos versão 2.0

Novembro 29, 2008

Foi-se o tempo em que meus pesadelos mais assustadores envolviam situações em que eu era flagrado nu em algum local público. Na maioria das vezes, eu ficava sentado no meio-fio de alguma rua por aí, sendo observado pelas pessoas. Esse pesadelo era recorrente principalmente na fase pré-adolescente.

Faz uma semana que meu pesadelo atualizado envolve outro tipo de situação embaraçosa, uma versão mais atualizada:

Eu converso com alguém pelo Windows Live Messenger (o antigo MSN), mas não estou em minha casa, nem no meu computador. Nos meus novos pesadelos, estou pelado, sentado numa cadeira ao lado do computador usado pela pessoa. A casa desta pessoa está lotada, com os pais e uns três ou quatro irmãs e irmãos andando para todo lado, toda hora. E eu ali parado, sentado, sem poder fazer nada. Eu não faço nenhum movimento, como se isso me tornasse invisível diante deles. Só me mexo para digitar algo na mesa, enquanto a pessoa conversa comigo pelo MSN. O pior é que, nas partes que me lembro, a pessoa é obrigada a parar de conversar comigo por algum motivo qualquer e fico então sem fazer nada, sentado e pelado ali. Prestes a ser descoberto. Acordo com a sensação de que fui pego no flagra.

Fizeram um upgrade no meu cérebro, pelo menos na parte dos pesadelos.

Ou sou eu que preciso largar a internet de vez.

Volta de apresentação

Novembro 29, 2008

- Pára, pára. Espera. Não dá pra ser mais delicado não?
- Tá querendo um viado na cama?
- Vá tomá no cú, Paulo, você sabe do quê estou falando.
- …
- Não dá pra ser mais sensível? Mais carinhoso? Sua mãe não te deu carinho?
- Deste tipo não. O que você tá querendo insinuar?
- Ai, você já vem pegando, chupando, metendo, depois vai gozar, virar pro lado e dormir. Não é isso que eu quero de um homem na cama. Quero um cara que me satisfaça também, que se preocu…

Não escuto o resto da frase. Juro que não imaginava que essa garota seria assim cheia de frescura. Tenho tido azar com mulheres ultimamente. Ou são muito difíceis de se levar pra cama ou quando as levo com certa facilidade, elas vacilam na hora H. Antes dessa, teve uma que começou a chorar porque o “meu jeito agressivo” na hora de foder lembrava um ex dela que a agredia. “Mas eu não bato em mulheres”, tentei explicar. “Desculpe, mas não é culpa sua.” E não rolou nada naquela noite.

Teve uma outra antes que levei de carro até uma área deserta aqui na cidade. Era tarde da noite. Estávamos avançando rapidamente, pulando estágios, beijos, chupões, roupas arrancadas… Quando estávamos nus, as mãos dela nele, a mulher pára tudo. “Não posso continuar, a gente nem se conhece.” Eu havia pego ela num bar horas antes. Argumentei o velho papo da tesão a primeira vista, que aquilo veio naturalmente, a gente deveria respeitar, mas não adiantou. Apelei: “Mas como você diz isso justamente agora. Olha como estamos! Pelados! Você tá com a mão no meu pau! E vem me dizer que não poder dar pra mim porque a gente mal se conhece. Pôr a mão no pau pode, então? Porque não disse antes. Lá no bar. Eu pegava outra garota.” “Vá se foder, seu porco. Me leva de volta agora.”

Hoje não foi diferente. Eu conheci a… esqueci o nome dela, puta merda… num bar no fim de semana passado. Ela é loira estilo mignon, deve ter seus metro e 60 e uns 60 quilos. Falsa magra, com bons peitos e uma bunda até que arrebitada e dura. Na cama, vi que tem umas estrias, mas tudo bem. Inteirona para alguém de 30 anos. Quando a vi no bar, me chamou a atenção seus lábios, carnudos e um pouco besuntados com um batom levemente roxo. Comentei com um amigo. Acho que ela percebeu e começou a me olhar. Quando foi ao banheiro, fui atrás e nos encontramos quando voltávamos para nossos lugares. Começamos a conversar. E fiquei lá com o grupo dela. Fomos embora juntos. No meu carro. Em uma semana, liguei para ela uma vez e ela, três para mim. Almoçamos juntos na quinta-feira. Escolhi um restaurante vegetariano para impressioná-la. Deu certo. Hoje, havíamos ido ao cinema, depois um barzinho freqüentado por casais e viemos para o motel.

- Então. Você está prestando atenção no que estou dizendo.
- Claro. Claro. Continua.
- Já acabei. P-A-U-L-O. Faz tempo. Poxa. Quando a gente se conheceu, você parecia ser tão diferente.
- Como assim? Você achou que eu queria o quê?
- Achei que você estava gostando de mim.
- Mas é claro que sim. Senão não estaria aqui na cama com você.
- Aposto que você estaria com qualquer uma na cama.
- Com certeza não.

Sempre que falam isso pra mim, me lembro de umas mulheres que nunca levaria pra cama.

- E outra. O seu modo de falar. É muito chão, muito palavrão.
- Eu falo o que penso.
- Então você precisa despoluir essa sua mente.
- Claro. Porque você deve ser daquelas que quando vai pro banheiro pensa “preciso ir ao toalete” e não “porra, preciso dar uma mijada agora”. Eu costumo ser natural, falo o que penso e como penso. Você fala “aquele cara é homossexual”. Eu falo “aquele cara é viado, baitola”
- Paulo, por favor. Vamos voltar a falar da gente. Você sabe o que são preliminares? Já ouviu isso antes?
- Tá, você tá querendo que eu chupe sua xoxota?
- Paulo, pelo amor de Deus, se você falar outro palavrão eu vou embora.
- Eu sei o que são preliminares. É que nem na Fórmula Um, quando os carros dão uma volta de apresentação antes da corrida em si. Para esquentar os motores, deixar o carro preparado. – Falo isso enquanto aproximo o meu rosto ao dela.
- Hã… É. É isso mesmo. – Fito seus olhos. Miro sua boca. Aproximo mais o rosto.
- Bem, e você já fez cinco pitstops hoje, né?
- Como assim?
- Por isso que nunca gostei de metáforas automobilísticas. Prefiro as futebolísticas. Se continuarmos assim, não vamos sair do zero a zero.
- Mas você quer é ficar no um a zero pra você. E eu quero um a um.
- Você tá muito chata. Eu tô vendo que vou ficar no cinco a um.
- Que?
- Deixa quieto. – Meus lábios estão quase tocando os dela.
- …

Com a mão em sua cabeça, aproximei sua boca da minha e a beijei. Meus lábios tocaram os seus com vontade. Nossos dentes chegaram a se bater. Passei a língua pelo contorno da sua boca. Ela enfiou a dela na minha. Suguei sua língua e coloquei a mão dela no meu pau. Ela deixou. Joguei-a deitada na cama e montei nela. Chupei os peitos, um de cada vez, por uns minutos. Talvez fosse isso que ela estivesse querendo. Abri sua boca, enfiei minha língua lá dentro e dei uma cuspida que foi no fundo de sua garganta. Encostei a cabeça do pau na xoxota. Ela soltou um peido. Fiz que não escutei. Ela não. E parou tudo. De novo.

- Desculpe. Mas eu não consigo.
- Não consegue o quê? – (Suspiros de ambos)
- Transar com você. Estou grilada.
- Você “é” grilada. Diferente de “estar” grilada.
- E você não ajuda.
- O que você quer que eu faça?
- Se você fosse mais carinhoso, mais compreensível, já seria suficiente. Mas acho que não te conheço o bastante. Talvez não fosse a hora. Eu precisava ter mais certezas.
- Olha, se eu quisesse ficar conversando com você, dando uns amassos, ficava lá no bar. Quando a gente veio pra cá, achei que você tava a fim de dar pra mim. Porra. É só uma foda. Pra que colocar tanto bicho na cabeça? Vocês, mulheres, colocam tanto empecilho numa coisa que pode ser tão simples e prazerosa que acabam deixando de aproveitar uma coisa que pode ser muito boa.
- Não me venha com essas teorias absurdas.
- Verdade. Você não tem vontade de dar? De sentir um pau em você? E por que então fica com tanto grilo na cabeça. “Ai, o homem tem de ser assim, tem de fazer isso e aquilo, tem de me abordar de tal jeito, tem de falar tal coisa.” Porra, quando no final das contas, o que importa é se o cara mete bem ou não.
- Me surpreende que você não seja mais virgem. Que alguma doida tenha dado pra você. Eu quero voltar pra casa.
- Pronto. Mais uma. Por que você não vai procurar um indiano e fica lá fazendo sexo tântrico com ele?
- Deve ser mil vezes melhor que dar pra você.
- Ei, você falou “dar pra mim”?! Achei que você ia falar “manter relações afetivas que envolvessem algo carnal múltiplo, mútuo e prazeroso”.
- Vá se foder.

Amar é inevitável

Novembro 28, 2008

Da minha mesa eu observava todos os dias, todas as tardes, mais ou menos no mesmo horário, quando a moça partia, e foi num destes dias, numa destas tardes, mais ou menos no mesmo horário, quando eu a vi em pé conversando, atrasada, ela não estava agindo como se fosse embora tão cedo; aliás, parecia que nunca mais recolheria suas coisas, do jeito que ela estava ali parada, e eu precisando levantar da mesa e ir para a rua trabalhar, mas desde o instante que a vi em pé de lado para mim, conversando e rindo, como se não precisasse mais voltar para sua casa, desde este instante eu percebi, não que fosse algo proposital, e sim como quando você abre um livro, sei lá, numa página qualquer, e pesca uma frase como quem não quer nada, tipo acha muito interessante aquilo e começa a ler o livro inteiro, a partir daquela frase de uma página qualquer: “aquelas notas subindo e baixando, dando voltas concêntricas sobre um pequeno ponto desconhecido, mas sem perderem a continuidade, de certa forma, disse baixinho, de certa forma Irene era assim”*; pode ser que ela, a garota de todos aqueles dias, todas aquelas tardes, mais ou menos no mesmo horário, talvez ela também fosse assim; é preciso estar esperto, mesmo quando se está desatento, para sentir que alguma coisa mudou; e alguma coisa mudou naquele instante em que a vi conversando em pé, esquecendo-se de ir embora; era um dia normal, uma tarde comum, mais ou menos no mesmo horário, e eu precisava sair; foi quando percebi que amar é inevitável.

*trecho de um livro de Caio Fernando Abreu.

“Você tem dinheiro sobrando aí?”

Novembro 27, 2008

Hoje, numa emissora local, uma repórter fala sobre denúncia de entrega de medicamento feita pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia para um fulano bem enturmado de outra cidade. O tom da matéria era condenar tal atitude, já que muitos goianienses não conseguem comprar seus remédios nem pegar um de graça na SMS. Até aí tudo bem, mesmo com os clichês. Mas então eis que surge a repórter entrevistando o “povo” e detona essa:

“A senhora tem dinheiro sobrando para comprar remédio?”

Sobrando? E foi perguntar isso para uma senhora de mais de 50 anos, com cara bem de pobre. Nem precisava dizer para quê era o dinheiro. “Tem dinheiro sobrando aí? Então me empresta unzinho.”

Depois vem o apresentador do telejornal, fazendo aqueles comentários clássicos de apresentadores indignados e preocupados, e solta mais uma pérola:

“Causa estranheza o secretário não querer falar sobre o assunto.”

Estranheza seria o secretário tomar a iniciativa de esclarecer tudo de forma sincera, assumindo sua responsabilidade. Aí sim, seria algo fora do normal.

Do jeito que o apresentador falou, e pela forma como a matéria foi apresentada, ficou parecendo matéria direcionada.

Inevitável

Novembro 27, 2008

Foi em uma destas noites em que conversávamos todos juntos na mesa de um bar e ela sorriu de uma piada minha, que percebi o quanto eu já estava dentro de algo que nunca imaginara. Afinal, por mais que nos aproximássemos, nunca estávamos próximos o suficiente, sei que me entende. Um dia amanheceu e a falta que ela me fez foi maior que a solidão de um quarto vazio num final de noite de domingo. E olha que não tem nada mais solitário que um final de noite de domingo sozinho. Demorou até que me desse conta. Como se ela tocasse a campanhia de casa constantemente, e eu perdesse tempo demais para arrumar a sala, deixar as poltronas uma na frente da outra, a bebida na mesa, escolher a música exata, a temperatura ideal, tudo aprontado para não haver erros, e então ela já não estivesse mais me esperando. Sempre que havia uma chance, eu a perdia. Uma noite eu estava em casa, sem nenhum plano imediato, confesso que até desarmado, quando ela me ligou. Se o que importa é o desejo, mesmo quando ele se autoconsome e nos consome, eu disse sim e pensei: o jogo não era complicado, bastava que me concentrasse o suficiente.

Quanto da vida se perde na espera

Novembro 27, 2008

Acordei com uma sensação diferente. Estranhei o silêncio. Sem sair da cama, olhei pela janela e vi as pessoas lá fora com seus olhares vazios. Desconfiado de que havia algo errado, liguei o rádio a tempo de escutar o locutor confirmando a notícia. Sem espanto. A verdade é que havia acabado. Peguei o jornal que o porteiro sempre deixa na porta do apartamento. Li, e confirmei. Era o fim mesmo. E desta vez, mesmo sabendo do que há de manipulação por trás de uma notícia, não havia do que duvidar. Na tv, o apresentador do telejornal matutino informou convicto, tratando do assunto com os verbos no passado. Após o banho, liguei para alguns conhecidos. Uns já sabiam. Outros ainda estavam dormindo, mas não ficaram surpresos. Ninguém questionou. Não era nenhuma novidade. Parecia haver uma combinação. Naquela manhã não havia canto de pássaros, nem luz do Sol. O tempo estava nublado e as nuvens avançavam pelo como se quisessem me sufocar. Me sentei na cama e coloquei a mão pelo lençol. Senti a ausência de todos os dias futuros. Dias ainda inteiros, longos e enfadonhos para serem vividos.

Matar é normal

Novembro 26, 2008

O freakshow não tem fim. Sempre tem alguém que traz alguma novidade. Desta vez, a personagem é Helen de Matos Victory, “namorada” de Mohammed D’Ali dos Santos, 20, o rapaz que matou e esquartejou a inglesa Cara Marie Burke, 17, aqui em Goiânia. Só pelo fato de ser namorada do cara, já é um absurdo merecedor de uma boa chamada de capa no jornalismo-show. Ela acabou de dar uma entrevista no jornal local da Rede Record e soltou essa pérola:

“Errar todo mundo erra, matar todo mundo mata.”

Então tá, né?

É dever do jornalista ulular o óbvio

Novembro 26, 2008

Essa é para quem não gosta de dar entrevistas:

Pautei uma repórter para fazer uma matéria sobre a decisão do Ministério Público de entrar na Justiça para proibir que garagistas estacionem seus carros à venda nas calçadas “para exposição” ou mesmo por falta de espaço dentro das garagens. Só que os caras já haviam sido autuados no começo do mês pela Prefeitura e por isso não havia mais nenhum veículo fora do estabelecimento ou do local correto para estacionar. Quando a repórter foi entrevistar um dos garagistas, o escolhido estava muito chateado por ter sido multado pelo órgão fiscalizador da Prefeitura. “Meu contador disse que vai tentar reduzir o valor da multa, mas mesmo assim vou ter de pagar uma grana”, contou à jornalista, mostrando um papel de… autuação. “Mas isso aqui diz que o senhor foi autuado e não multado, diz que o senhor tem até oito dias para tirar os carros da calçada, aí sim, se o senhor não tirasse, a Prefeitura tomaria outras providências”, observou a repórter. Nervoso e chateado, ele ainda tentou retrucar: “É, eu sei, também pensei isso quando li essa folha. Mas meu contador disse que fui multado. Tenho de confiar nele, né?” O óbvio ululante nem sempre ulula para todos.

Não sei o que aconteceu depois que a repórter foi embora dali. Mas achei o caso uma boa história para contar a quem não gostar de atender um jornalista.

O avião e a árvore

Novembro 25, 2008

Um dia, quando meu filho estiver mais velho, vou contar uma história para ele refletir. Uma espécie de fábula, mas onde os personagens não são animais que falam, e, sim, um avião e uma árvore. Pensei nela hoje de manhã. Provalmente até lá, essa história estará bem mais elaborada. Dá até um conto infantil, acho. Por agora, segue apenas um rascunho meio conceitual do que quero narrar.

“Era uma vez um avião que gostava muito de voar. Ele ia para vários lugares, passeava bastante e conhecia muitas coisas legais. Um dia, fazendo uma de suas viagens de sempre, sem nenhuma novidade, nem nada importante para fazer, ele reparou em uma árvore muito bonita, grande, cheia de vida. Suas raízes eram grandes e profundas, iam lá no fundo da terra, deixando a árvore bem firme. Em volta da árvore, havia outras também bonitas, plantas diversas, flores e animais felizes com a água e os frutos que havia naquele lugar. Era algo bem bonito de se ver, bastante colorido. O avião passou “voando” e foi tão rápido que nem deu para ver tudo que havia lá embaixo de bonito e interessante. Por isso, ele voltou a passar lá outras vezes, mesmo que tivesse de desviar da sua rota original. O avião gostava de apreciar a grande árvore, e ver como ela era bonita e feliz.

Logo, de tanto admirar, começou a invejar e comparar as coisas boas de ser uma árvore com as coisas ruins de ser um avião. Pronto. Foi uma questão de tempo para começar a lamentar de ser um avião. Queria porque queria ser uma árvore, ter raízes fortes num lugar só e ali construir sua relação social. Passou a viajar menos, a voar menos com os amigos aviões, helicópteros e passarinhos. Ficava mais em seu hangar, olhando algumas árvores menores que havia por ali e dizendo para si que até elas, mesmo menores que a grande árvore, eram mais felizes que ele.

O tempo foi passando, e o avião começou a perceber que estava ficando meio enferrujado, sujo e até com teia de aranha… Um dia, cansado de não fazer nada, o avião resolveu voar de novo, passando pela árvore para ver como ela estava. Durante a viagem, o avião ficou pensando em tudo de bom que era ser uma árvore e em quão feliz aquela grande árvore estaria feliz naquele momento. Foi quando ele se aproximou de onde a árvore vivia que levou um susto.

Quase nada era como ele havia visto. A árvore ainda estava de pé, firme, mas em sua volta havia pouquíssimas árvores, quase nada de flores e outras plantas e os animais sumiram. Estava tão vazio ali que o avião viu um espaço grande o suficiente para pousar e parar ao lado da árvore. Queria conversar com ela.

Veio então nova surpresa. A árvore estava muito triste e disse que o sonho dela era ser um avião. Afinal, ser uma árvore também tinha seus poréns. Após um grande incêndio na floresta, muitas árvores perderam suas cores, os animais fugiram e ela e suas amigas não poderiam ir embora. “Feliz é você, avião. Que pode ir para onde quiser, quando quiser, tem uma bagagem cultural boa, conhece um monte de gente, tem muitos amigos. Eu estou presa aqui.” O avião contou então que também era infeliz porque queria ser uma árvore, ter raízes fortes em um lugar, viver ao lado de outras árvores e animais com quem poderia ser bastante amigo, já que todos se conheceriam bastante por causa de suas raízes numa mesma região. “Bobagem, avião, se você quiser, pode fazer um hangar onde você mais gostar, e ficar por ali.” Os dois ficaram conversando um tempão.

O avião então decidiu construir um hangar do lado da árvore, e eles se tornaram bons amigos. O avião, inclusive, trouxe vários novos amigos para a árvore conhecer, e ela apresentou suas amigas árvores para ele. E todos viveram felizes para sempre.

Moral da história: seria algo assim, não existe apenas um único caminho para ser feliz, por isso vc não precisa ser infeliz pelo que você é, e sim aproveitar suas características para ser uma pessoa feliz e amada.